Kim Gordon

Kim Gordon, “The Collective” Segundo Josephine Pryde

O intenso, desorientador e pulsante segundo álbum a solo de Kim Gordon, nas hiperbólicas palavras da artista Josephine Pryde, com quem a lendária baixista dos Sonic Youth colaborou numa instalação para o Museum im Bellpark, em Kriens.

Desde que co-fundou os seminais Sonic Youth, no início dos anos 80, Gordon tem permanecido no nexo entre música, arte e (mais recentemente) livros e filmes. Estreou-se no primeiro lugar da lista de ‘bestsellers’ do NY Times com o seu livro de memórias “Girl In A Band”, de 2015; actuou sob a direcção de Gus Van Sant (em “Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot”, de 2018), lançou música e actuou como metade dos Body/Head, ao lado de Bill Nace; e abriu várias exposições individuais em museus de renome internacional.

Lançado em 2019, o álbum de estreia de Kim Gordon, “No Home Record”, foi amplamente aclamado pela crítica, incluindo do The New York Times («A rainha das estrelas da arte do cool de Nova Iorque»), The Guardian («une brilhantemente texturas de ruído à dinâmica pop»), Sunday Times, onde foi ‘Album Of The Week’ («brutalmente bom»), Vogue («imediato, solto e liberto, tão feroz como sempre foi»), Vanity Fair («encontra novas formas de soar experimental») e Pitchfork, onde foi eleito ‘Best New Music’ («emocionante estreia a solo vive na vanguarda do som e da performance»).

“No Home Record” foi gravado em Los Angeles e produzido por Justin Raisen (Angel Olsen, Yves Tumor), além de incluir contribuições de Shawn Everett (Weezer, Julian Casablancas) e Jake Meginsky. Os temas abordados no álbum pela icónica figura de Sonic Youth incluem o consumismo e a identidade pessoal. Kim Gordon estreou o álbum ao vivo, acompanhada por uma banda completa, no BBC 6 Music Festival, em Londres, ainda antes do início da pandemia e, mais recentemente, quando esse período infernal o permitiu, tocou em datas meticulosamente planeadas em festivais como o Riot Fest, Primavera e Corona Capital.

A produção criativa de Kim Gordon, desde “No Home Record”, incluiu o livro de arte/jornal visual “No Icon” na Rizzoli; um single com o icónico frontman dos Dinosaur Jr., J Mascis; uma exposição das suas pinturas na galeria de arte 303 de Nova Iorque; uma encomenda para o Museum im Bellpark, em Kriens, em colaboração com a artista Josephine Pryde; e uma performance de dança e música com o coreógrafo Dimitri Shambles. Além disso, Gordon organizou uma venda pública do seu icónico guarda-roupa, com todas as receitas a reverterem a favor do Downtown Women’s Center, em Los Angeles.

Carregada de oportunos floreados hiperbólicos, é precisamente a artista britânica Josephine Pryde que nos deixa pungentes palavras sobre “The Collective”, disco gravado na cidade natal de Kim Gordon, Los Angeles, que sucede a “No Home Record” (2019) e continua a sua colaboração com o produtor Justin Raisen (Lil Yachty, John Cale, Yeah Yeah Yeahs, Charli XCX, Yves Tumor), com produção adicional de Anthony Paul Lopez.

Pryde

«Havia um certo espaço em “No Home Record”, de Kim Gordon. Pode não ter sido uma casa e pode não ter sido um disco, mas lembro-me que havia um espaço. Avenidas, quartos, instrumentos eram tocados, gravados, a voz e as suas vozes e os seus enunciados, esticando um caminho através dos ritmos e dos acordes, enfiados num qualquer lugar partilhado, encontrávamo-nos ali, a guitarra vinha também, caía um som de pratos, conduzindo a música. Escutámos, virámos as costas às paredes, deslizámos pela cidade à noite. As palavras de Kim Gordon nos nossos ouvidos, os seus olhos, ela viu, ela sabia, ela lembrava-se, gostava. Estávamos a ir para algum lado. Sem registo de casa. Mudança.

Agora estou a ouvir “The Collective”. E estou a pensar, o que é que foi feito a este espaço, como é que ela o tratou, não está aqui da mesma maneira, não exactamente. Quero dizer, não não é bem assim. Nesta prova, estilhaçou-se, brilhou, bateu e ardeu. Aqui está escuro. Posso amar-te com os meus olhos abertos? “It’s Dark Inside.” Assombrado por incorpóreas vozes sintetizadas. Planos de projecções. Os espelhos apanham a arma e o eco de uma música bem conhecida, entra em liminaridade, mas nunca deixa de fazer parte da atmosfera, esbatendo-se como ela diz – A moer nas bordas. A moer-nos a todos, a moer-nos. Magoando, raspando.

Sedimentos, camadas, de emissões registadas, extraídas, torcidas, refractadas. Isso faz a música. Esta geologia cintilante e sem ar, agitada, gritos feitos em dados, que saltam por túneis subterrâneos, chegando aos nossos ouvidos. Recordámo-la – mas não como uma memória, mais como se recorda um produto, quando é com defeito.

Ela canta “Shelf Warmer” para que soe a prazo de validade, soe radioativo, dentro das nossas relações, a tremer, as batidas a tagarelar, nervosas, a dor do amor na loja de recordações, reunida em explosões ocas, em palmas que arranham. A oferta de presentes não é recíproca, há uma devolução. Mas – ideia inovadora – Uma mão e um beijo. E que tal? Perturbação.

Eu diria que Kim Gordon está a pensar em como o pensamento é, agora. Os artistas conceptuais fazem isso, fizeram isso. “I Don’t Miss My Mind”. O disco abre com uma lista, mas a lista está sob o título “BYE BYE”. A lista diz “milk thistle”, “dog sitter”… E muito mais. Ela vai-se embora. Porque é que a lista está ansiosa? O rímel é muito polémico? Está na lista. Estou a fazer as malas, a ouvir a lista. É minha ou dela?

Ela começou a procurar imagens por detrás dos seus olhos fechados. Colocando-as em música. Mas eu preciso de manter os olhos abertos enquanto ando pelas ruas, com o ruído cancelado pelos silenciosos, conscientes, silenciosos, conscientes, eles cantam para mim. O que se estará a passar na cabeça da Kim enquanto ela passa na minha?»

Fragmentos

No final, o álbum revela essa edificação conjunta do mundo, com as construções danificadas e estouradas de Raisen, de dub e trap, a servir de contraste para as colagens intuitivas de palavras e mantras de Gordon, que evocam comunicação, sublimação comercial e sobrecarga sensorial. Um contexto que foi exposto de forma tão sublime quanto intensa nos singles que anteciparam o álbum.

O vídeo promocional de “BYE BYE” é protagonizado por Coco Gordon Moore e foi realizado pela fotógrafa e cineasta Clara Balzary, com cinematografia de Christopher Blauvelt.

“I’m a Man” espaira sobre uma paisagem sonora sombria e agitada. Gordon rumina sobre o papel perdido da “masculinidade tradicional” e o papel do capitalismo no seu desaparecimento. Um vídeo evocativo serve como um acompanhamento visual perfeito para as letras expressivas e o som pulsante da canção. É protagonizado por Coco Gordon Moore e Conor Fay e foi realizado pelo realizador Alex Ross Perry, mais conhecido por ter escrito e realizado os filmes “Listen Up Philip” e “Her Smell”.

Realizado pela própria Kim Gordon e pelo músico/cineasta/produtor Vice Cooler, com os seus cortes rápidos e quadros invertidos de abóboras dessecadas, insufláveis gigantes e escadas rolantes de centros comerciais, o vídeo ambientado em Los Angeles é tão desorientador como a própria malha “Psychedelic Orgasm”.

Os textos são extraídos dos press releases oficiais deste disco de Kim Gordon (cortesia da Popstock! Portugal) editado no dia 8 de Março de 2024. A foto que abre o artigo é de Danielle Neu.

2 pensamentos sobre “Kim Gordon, “The Collective” Segundo Josephine Pryde

Leave a Reply