La Chanson Noire

La Chanson Noire, Missa Negra

Em “Missa Negra”, Charles Sangnoir revisita ao piano as duas décadas de La Chanson Noire com elevada sofisticação, na plena posse de maturidade artística e instrumental.

Não me recordo do ano, mas foi numa Passagem de Ano no Baleal, em Peniche. Uma casa cheia de jovens, do suor que escorre como seiva na flor da idade, de música de qualidade duvidosa em altos berros, a fomentar estados de euforias em paralelo com o consumo excessivo de licores e outras substâncias. A meio de um cenário com o quê de “Calígula” e Tinto Brass, reparei num tipo que, numa linda e arrogante estátua de misantropia, tocava uma guitarra acústica meio sovada e cantava sílabas que não se traduziam a meio do caos festivo.

La Chanson Noire nasceu em 2007 e é o projeto de Charles Sangnoir, artista originário de Portugal, actualmente a residir em Paris. Com um longo percurso artístico nas várias vertentes da arte, fez mais de 500 espectáculos em cidades como Lisboa, Porto, Paris, Montpellier, Londres, Madrid e Vigo. Figurou como pianista residente em programas de televisão ao longo de mais de 300 emissões e dedica-se ainda à pintura, gastronomia, assim como às artes esotéricas. Enquanto produtor, supervisionou a concepção de mais de 30 discos e escreve, ainda, música para televisão, rádio e cinema.

Tem como pano de fundo a divulgação dos prazeres da decadência, a apologia da exuberância e da extravagância, a defesa da liberdade e da libertinagem. Assumindo-se um projecto bucólico-depressivo, as raízes de La Chanson Noire estão fincadas no folclore português e adaptadas, via cultura punk, aos dias de hoje, passando por sonoridades que se inspiram na ópera, na pop art e, até, na adega. É multi-instrumentista, tocando os instrumentos todos que compõem a sua música. 

Acima de tudo, La Chanson Noire é arte: no seu melhor e no seu pior. Foi a meio desse percurso que situei o Carlos Monteiro, a tocar guitarra nas escadas daquela vivenda inundada por folia e folgança. Em retrospectiva, faz absoluto sentido que a sua persona, Charles Sangnoir, ali estivesse como um enviado de baco. Como sempre fesz em toda a sua peculiar carreira e com essa omnipresença dos agentes dos deuses e, principalmente, dos deuses orgiásticos.

Essa carreira de Sangnoir e de La Chanson Noire é resumida nesta missa, um ritual de fiéis, sejam eles de deuses ou do diabo. Algo que leva almas perdidas a se unirem num espaço e prestar vassalagem a algo que acreditam ser a sua salvação. O ser humano, fraco e pecador por natureza, procura muitas vezes um perdão (dirão ilusório) e uma salvação que nada mais lhe traz que uma espécie de loucura cega. 

“Missa Negra” não traz salvação ou perdão! Pode trazer tentação e até, satisfação! Mas não saberão se não fizerem parte desse ritual. Basta, para isso, ouvirem! “Missa Negra” é o 6.º álbum de La Chanson Noire, uma compilação que aprimora a toada gótica tão europeia e o humor negro que tão bem caracterizam a obra do autor, num tom mais sereno acompanhado de piano e voz. É um disco que revisita os temas mais marcantes e intensos de quase duas décadas de La Chanson Noire acompanhados apenas do veludo negro da suavidade do piano numa edição de luxo.

La Chanson Noire é suscetível de agradar a fãs de Nick Cave, Antony and the Johnsons, Sopor Aeternus e Bauhaus. Em contraste com o southern gothic que se veio a reconhecer num seu gémeo bastardo King Dude, Sangnoir tem cultura e mordacidade mais desenvolvidas ou naturalmente amplas. Para o perceber, bastaria ouvir a forma refinada das suas execuções no piano e o carácter vaudeville/andrógino da sua sensualidade vocal. Como se o Ega, de “Os Maias”, douto e boémio, pulasse de canção em canção.

O álbum foi gravado no M.A.D.A.M. em Les Lilas, de um jeito tão semelhante ao dessa primeira vez que o vi, mas não ouvi. Em acústico, pianissimo, mas desta vez com silêncio ao seu redor, para melhor se saborearem os versos bacantes. Foi misturado e masterizado no Studio Stendhal em Paris e produzido pelo próprio Charles Sangnoir. “Missa Negra” tem o selo da Raging Planet, Larvae Records, Violeta Exótica e Chaosphere Recordings (edição em CD apenas).

Texto construído sobre o press release concebido por Eliana Berto e pela agência Ride The Snake.

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