Mário Delgado oferece-nos uma perspectiva de autor sobre cada um dos temas “Room 4”, o quarto álbum dos TGB que criou ao lado de Sérgio Carolino e Alexandre Frazão. Disco imperdível, com o selo da Clean Feed.
Assinalando duas décadas de evolução contínua e eclética, os TGB – o power trio português composto pelo às da tuba Sérgio Carolino, o guitarrista Mário Delgado e o baterista Alexandre Frazão – dão mais uma volta cativante ao seu enigmático universo de influências musicais colectivas, filtrando uma paleta sónica irrepreensível através do prisma de “Room 4”, o quarto e impressionante álbum do conjunto para a editora Clean Feed.
“Room 4” é alvo de louvores na ROMA INVERSA, mas vale a pena acrescentar uma nova visão sobre o álbum. Tal como fez para a plataforma Jazz.pt, Mário Delgado oferece-nos uma imersão no significado mais profundo dos temas e nas motivações das composições. Por exemplo, o tema “Pedro Virtuoso Poeta Errante” é dedicado ao querido e saudoso Pedro Gonçalves. Eis as palavras do guitarrista de TGB…
“Kinetic” é uma melodia concebida como se fosse tocada por um músico de fusion virtuoso, em que a junção da tuba com a guitarra cria uma espécie de timbre de moog e o Alexandre [Frazão] faz a maravilha de a desvirtuar do caminho inicial.
Musicalmente, “Trailblazer” decorre de uma melodia construída quase sempre por quintas perfeitas sobrepostas em vários saltos de intervalos, existem três ramificações da frase e uma parte B. Na minha cabeça é assim quase como que se os Cream tocassem Stravinsky. Esta música foi criada para uma disciplina que leccionei na licenciatura na Universidade de Évora, de nome “Improvisação e Criatividade”, que reunia os alunos da licenciatura de jazz e de música clássica. Tinha mini-temas construídos para esta disciplina apenas (quase sempre) com um intervalo musical, este é um deles. Estava arquivado com o nome de tema das quintas.
“Em Tempo Real” é uma música do Alexandre Frazão e é sustentada por dois ritmos inusitados, que têm um andamento e subdivisões diferentes e que estão relacionados cada um com a sua própria melodia. Vão circulando em alternância, mas no final a melodia inicial é tocada por cima do segundo ritmo.
“Dança Fantasma”. O hook desta música são os dois acordes pouco comuns que construí na guitarra e que me disseram logo que tinha de fazer alguma coisa com eles. A melodia apareceu um dia muito naturalmente, revelando-se perfeita para a sonoridade do Sérgio.
“Coconut Cartoon” é uma música que surgiu num dia em que não estava particularmente contente, apesar de ser uma música muito alegre. Aqui existiu um desejo deliberado de construir uma situação musical muito diferente daquilo que habitualmente podemos fazer em TGB. Tem umas partes meio afro e outras mais orquestrais que me fazem lembrar genéricos de desenhos animados antigos, daí o nome.
“Nebula’s Awakening” é uma improvisação a solo do Sérgio que serve de introdução para o tema seguinte, “Interstellar Vibe”. É uma música do Sérgio Carolino que tem a particularidade de ter uma métrica muito incomum, o que implica que a surpresa seja constante durante a escuta. Além disso, tem uma daquelas partes de tuba que por si só já faz o tema.
“Pedro Virtuoso Poeta Errante” é uma música dedicada ao Pedro Gonçalves (mais conhecido por ser metade dos Dead Combo) que percorreu a minha vida quer como aluno, amigo ou inspiração. A ligação ao Pedro também é comum ao Alexandre e ao Sérgio, por isso esta música fazia todo o sentido neste disco dos TGB.
“Rhythmic Rebellion” foi composta a pensar numa melodia que pudesse ser partilhada por vários instrumentos numa forma muito dividida, partida num ritmo quase punk, daí o nome. Também foi gravada no disco “25” dos Lokomotiv, mas sem ninguém ter escutado a primeira gravação. Contém uma parte de improvisação livre, diferente do que já fizemos até aqui e uma parte seguinte com alguma reminiscência a filmes de cowboys e motas, se é que tal existe.
