Lokomotiv

Lokomotiv, 25

O familiar e explosivo experimentalismo de Carlos Barretto, Mário Delgado e José Salgueiro, é revigorado pelo saxofone de Ricardo Toscano. A assinalar duas décadas e meia dos Lokomotiv, “25” é um dos melhores álbuns de 2023.

Os Lokomotiv têm-se destacado pela sua enorme flexibilidade estética, com o compromisso único de explorar a contemporaneidade do jazz. Nesse sentido, Carlos Barretto, Mário Delgado e José Salgueiro sempre revelaram um largo espectro de interesses musicais que cobrem tendências como o rock, o jazz, a world music e até a música clássica ou erudita, situando-se entre os expoentes portugueses de um ecletismo que é bem a marca deste início de século. A fim de celebrar os 25 anos de actividade, lançaram convite ao saxofonista Ricardo Toscano para integrar a formação e gravaram o álbum “25” em quarteto, com temas originais.

POV

No press release que acompanha esta edição, cada um dos músicos fala sobre a concretização deste álbum dos Lokomotiv que sucede a “Labirintos” (2010) e “Gnosis” (2018). Desde logo, Carlos Barretto: «Fomos para estúdio com os novos temas previamente ensaiados, mas a componente da improvisação e espontaneidade troca-nos sempre as voltas no acto de gravar e por isso o resultado foi diferente (para melhor) do que estávamos à espera. Creio que temos aqui um bom disco».

O líder, para todos os efeitos, deste trio feito quarteto aborda também o motivo da expansão da formação dos Lokomotiv: «Nestes 25 anos construiu-se uma boa cumplicidade e entendimento entre nós. Porém, vimos chegado o momento de acrescentar uma nova voz ao colectivo, justificada pela necessidade de diversificar cores e ambientes sonoros. Esse lugar está muito bem entregue ao saxofonista Ricardo Toscano, que se adaptou que nem um camaleão aos objectivos da banda, que passou a quarteto com os já habituais Mário Delgado e José Salgueiro (e que grandes compagnons de route aqui tenho)».

«Gravar em estúdio é sempre desafiante. Ouvir os parceiros atentamente e comunicar através dos sons, onde o discurso que flui se torna complexo sem perder a lucidez objectiva de uma coerência própria, num som único que caracteriza os Lokomotiv. 25 anos de música com o Carlos Barretto e o Mário Delgado não é muito nem pouco. É o melhor tempo da nossa cumplicidade à qual se junta agora o talento de Ricardo Toscano, com a sua música e energia contagiante», refere o baterista José Salgueiro.

Mário Delgado refere-se a 25 anos a pensar e viver em modo Lokomotiv, manifestando profunda admiração pelos companheiros de longa data e o “intruso”. O guitarrista, refere-se ao contrabaixista como um personagem de banda-desenhada francófona, da qual é enorme fã, e coloca-o a par de uma das maiores lendas do jazz e da música…

«O Carlos Barretto para mim é um Mestre, uma espécie de alter-ego do Miles Davis misturado com o Rasputin do Corto Maltese. Por momentos, pode dar-me uma direcção daquilo que devo fazer de uma forma muito próxima da história da gravação do “In a Silent way” – ‘Toca ruídos não toques acordes, mas não toques só ruídos’; outras vezes pode instruir – ‘toca o que nunca foi tocado’. Como gosto de mistérios, quanto mais interrogações a mensagem suscitar, melhor isso poderá ainda enaltecer a minha própria intuição».

Os elogios tecidos aos outros dois músicos da formação dos Lokomotiv em “25” não são menores: «O José Salgueiro é um dos músicos mais mágicos que conheço. Tanto pode tocar música muito complexa, com um grau de comunicação superlativo, como interagir de uma forma perfeita com um músico amador que esteja a tocar numa praia ou com uma criança a brincar com o seu instrumento. É, como se costuma dizer, um músico natural».

«Toquei com o Ricardo Toscano antes de os outros dois vértices do triângulo o conhecerem e, de certa forma, sabia que isto iria acontecer um dia. Durante os ensaios foi sempre notória a forma camaleónica como ele se consegue fundir com o som do grupo, sem nunca perder a sua essência ou tentar impor-se de uma forma mais egocêntrica. Sempre com todos os seus atributos a funcionarem em função da música», termina Delgado.

Tocar O Que Nunca Foi Tocado

Ao longo de quase sete minutos, “Tumba Laka Muna Kira Táka Pirí” estabelece as fronteiras musicais (ou a ausência delas) deste disco de Lokomotiv. Fá-lo através de uma frenética fusão jazz, funk e rock, com uma acidez que evoca Frank Zappa.

Com esse primeiro tema ainda em mente, a subida de Ricardo Toscano ao primeiro patamar do jazz nacional foi rápida, mas apenas porque o seu invulgar talento e a sua forte personalidade musical marcaram esse ritmo muito naturalmente desde muito jovem. Pelo caminho foi chamando a atenção dos melómanos e jazzmen internacionais, colocando-o em digressão com figuras como Ali Jackson (Wynton Marsalis) e Géraud Portal. Com matriz na tradição do bop e do pós-bop, ei-lo agora também a marcar pontos em contextos mais livres, ao lado de improvisadores do nosso panorama.

O balanço perfeito entre a sua preponderância melódica e a pertinência excêntrica é uma das maiores qualidades deste disco dos Lokomotiv, algo que se sente no seu cruzamento com os explosivos solos de Delgado. Ambos suavizam o fundo sónico, onde Barretto e Salgueiro (e os ruídos/acordes de Delgado) desconstroem os compassos para nos presentear com uma multiplicação prismática de possibilidades rítmicas.

É com os sentidos em alerta, esticados como cordas, que se saboreia os contrastes de intensidade daquilo que parecem as duas faces (com o foco a alternar-se sensivelmente a meio da malha) de “L’ombre Du Triton”. “Ornettish” recupera o confronto entre guitarra e saxofone, mas desta vez a secção rítmica é propulsivamente mais directa, sentido-se a excepcional suavidade do controlo dinâmico dos Lokomotiv quando o quarteto refreia o seu ímpeto para o solo de contrabaixo.

“Horizontes De Paz” torna a colocar o contrabaixo como elemento central. Os sobretons de Barretto são deslumbrantes e, quando os restantes instrumentos emergem, o tema sente-se como se os músicos estivessem a tocá-lo sobre um lago, sem agitar as águas. Altura para referir o excelente trabalho de gravação de Nelson Canoa, nos seus Canoa Studios, em Torres Vedras, capaz de traduzir com enorme detalhe o calor específico de fontes acústicas e eléctricas. E ainda a mistura e masterização de Carlos Vales, respeitando o amplo espaço de acção e articulação de cada um dos elementos dos Lokomotiv.

A disrupção regressa na segunda metade do disco, com o groove staccato de “Decompor” que nos remete para (e admito estar fora de pé) Benny Golson, mas Benny Golson em esteróides. Em “Asymmetric Angle”, o arco no contrabaixo na introdução dá lugar a um denso shell voicing que torna esta a malha mais pesada dos Lokomotiv neste disco e, apropriadamente, o lugar natural para o destacado solo de bateria. Uma densidade rocker que é mantida intacta em “Rythmic Rebellion”, mas desta vez com continuada hipertensão rítmica a servir para os solos de saxofone.

As lentas, mas exponenciais progressões de “Drina” e “3 da Manhã e Não Encontro as Chaves”, temas que fecham o disco, oferecem-nos duas perspectivas diferentes de crescendos, mas em ambos os casos o turbulento final é semelhante: uma implosão de colcheias. O tempo passa tão depressa como este disco dos Lokomotiv, e vivem-se 25 anos num piscar de olhos, felizmente este “25” pode ser revivido uma e outra vez.

Um pensamento sobre “Lokomotiv, 25”

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