Editado a meio dos anos 80, “Vigilante” é um álbum charneira dos Magnum, fundindo a sua profundidade artística com maior apelo comercial. Gravado nos Mountain Studios dos Queen e produzido por David Richards e Roger Taylor, é como um disco gémeo de “A Kind Of Magic”.
Formados pelo guitarrista Tony Clarkin e pelo vocalista Bob Catley há mais de cinco décadas na cidade de Birmingham, os Magnum afirmaram-se como uma das melhores exportações AOR do Reino Unido, um género dominado predominantemente por bandas norte-americanas. Com a sua sensibilidade melódica única e instrumentação de bom gosto, o grupo lançou 22 álbuns de estúdio ao longo dos anos, sendo o mais recente “The Monster Roars”, editado em 2022 e aclamado pela crítica.
Mas é “Vigilante” que nos traz aqui. O sexto álbum na discografia dos Magnum, alavancado pelo soberbo super single “Lonely Night”, tornou-se um momento axiomático na carreira da banda britânica e deixou uma marca indelével na paisagem do rock melódico, ao nível dos Journey, Foreigner ou Asia. Editado em 1986, o álbum provou que os Magnum possuíam a mesma capacidade para misturar rock de poder antémico com desenvoltura lírica, capaz de criar uma experiência que ressoava entre fãs hardcore, críticos e também com o mainstream.
“Vigilante” marca uma evolução notável no estilo musical dos Magnum. Ainda retendo integralmente os elementos melódicos e sinfónicos dos seus discos anteriores, a banda adoptou um som mais refinado e uma produção mais polida. O disco capitaliza o sucesso do anterior “On A Storyteller’s Night” e assume o anseio do mainstream. Foi produzido por David Richards e por Roger Taylor nos Mountain Studios, em Montreux, que era o estúdio dos Queen. Essa decisão foi o ponto de partida para uma fusão perfeita de hard rock, AOR e até de estruturas dentro do rock progressivo, demonstrando toda a versatilidade e maturidade musical de Bob Catley (na voz), Tony Clarkin (guitarra), Wally Lowe (baixo), Mark Stanway (sintetização) e Mickey Barker (bateria).
Richards e Taylor optaram por dar predominância ao som de sintetizadores em relação à guitarra, tal como os Queen faziam nesta época e dessa forma temas como “Lonely Night”, “Need a Lot of Love”, “Midnight (You Won’t Be Sleeping)” e “Vigilante” pavimentaram o sucesso comercial do álbum seguinte, “Wings Of Heaven”, que chegou à quinta posição nas tabelas de vendas de álbuns no Reino Unido. Para cimentar o estatuto comercial, o baterista dos Queen emprestou ainda a sua voz aos coros de “When The World Comes Down” e “Sometime Love”, enquanto Daniel Bourquin assina os apelativos saxofones de “Midnight (You Won’t Be Sleeping)”.
Um dos aspectos marcantes de “Vigilante” é sua coerência temática. O álbum gira em torno do conceito de justiça, vigilantismo e questões sociais. Cada canção contribui para uma narrativa que explora os aspectos mais sombrios da natureza humana, desde a busca por poder em “Lonely Night” até as reflexões introspectivas em “Crying Time” e o comentário social em “When the World Comes Down”. No seu recurso ao escapismo da fantasia e no seu carácter sónico, “Vigilante” é quase como um spin-off de “A Kind Of Magic” dos Queen, o álbum de “Highlander”…
O álbum começa com o pungente hino “Lonely Night” (talvez a música favorita de toda a década de 80 de quem vos escreve, a par de “You’re The Voice”, de John Farnham) estabelecendo o ambiente para todo o disco. O ritmo envolvente da música, os solos de guitarra arrebatadores e as vozes emotivas de Bob Catley criam uma introdução cativante ao mundo de “Vigilante”. “Midnight (You Won’t Be Sleeping)” é um dos maiores exemplos da capacidade dos Magnum parar tecer coros tão melódicos como memoráveis. Declaradamente prog rock, os arranjos e progressões dos arranjos demonstram o magistério da banda na composição e o seu aguçado sentido dinâmico.
Ainda nos highlights do disco,”When the World Comes Down” destaca-se pela sua força lírica e maturo comentário social, combinando a voz evocativa de Catley, que nos entrega uma arrasadora mensagem sobre as consequências da negligência e indiferença social (muito antes desta era de futilidade em que vivemos), com o intrincado trabalho de guitarra de Tony Clarkin. É um tema de contrastante densidade de sombras e um cegante brilho melódico. O tema título, com o seu groove propulsivo e peso de guitarras, é outro momento magnífico.
Enfim, “Vigilante” teve um papel preponderante na definição dos Magnum da cena rocker, aumentando a sua exposição comercial e mantendo a habitual aclamação crítica. O seu apelo mantém-se intacto e revigorado nos nossos dias graças à vitalidade da sua temática (encantadoramente exposta num mundo de fantasia) e a essa capacidade singular de criar melodias grandiosas e baladas introspectivas que, cada vez mais, se vai perdendo no mundo do hard rock.
Esta recensão é uma homenagem a Tony Clarkin que, como noticiaram os nossos parceiros na LOUD!, morreu no passado dia 7 de Janeiro de 2024. Descansa em paz, Tony!
