Eddie Van Halen

Eddie Van Halen, O Mozart da Guitarra Eléctrica

Para Tom Morello, Eddie Van Halen foi o Mozart da nossa geração. O guitarrista dos Rage Against The Machine recorda o impacto e influência do EVH na guitarra eléctrica e na música rock, evocando ainda a primeira vez que viu Van Halen ao vivo, na digressão de 1984.

Tom Morello ouviu Eddie Van Halen pela primeira vez na escola secundária em Libertyville, Illinois, e basicamente desde esse momento passou a considerar a banda do guitarrista uma das suas maiores influências: «Se alienígenas surgissem e nos desafiassem para uma batalha de bandas, para decidir o destino do planeta Terra, sentir-me-ia muito confiante em apresentar os Van Halen (dos primeiros tempos) como os nossos campeões», disse Morello em 2013.

Anos mais tarde, aquando da morte do shredder, em 2020, num artigo que escreveu e foi originalmente publicado na Rolling Stone, Morello aprofundou a ideia de como a forma de tocar de Eddie Van Halen o moldou, como foi a experiência de ver Van Halen ao vivo pela primeira vez e a experiência emocional de compartilhar a música da banda com Wolfgang Van Halen. Eis as suas palavras…

«Eddie Van Halen foi um dos maiores, mais inventivos e verdadeiramente visionários músicos de todos os tempos. Ele foi um titã sem igual nos anais do rock & roll. E no Monte Rushmore dos guitarristas, ele surge em posição de destaque. A maneira como ele re-imaginou o instrumento foi um testemunho de inspiração divina: pegando nessa espécie de guitarra construída artesanalmente e transformando-a numa vara divinatória de incrível poder no rock & roll. Ele foi verdadeiramente inspirador para gerações de guitarristas.

Coloco-me na lista de pessoas que não apenas tinham um aumento profundo no amor pelo género devido à sua excepcional e insuperável musicalidade; mas também pela maneira como ele destruiu a noção de que tudo já havia sido feito antes na guitarra eléctrica. Isso certamente plantou a semente para jovens como eu começarem a explorar possibilidades no instrumento que eram impensáveis antes de Eddie Van Halen. A primeira coisa que ouvi foi o álbum de estreia [Van Halen]. No rádio de Chicago, tocavam “Running With the Devil”, “Eruption”, seguida de “You Really Got Me”, e não há como descrever de outra forma – era sobrenatural. Não havia uma referência no YouTube para entender o que estava a acontecer.

Eddie Van Halen era um tremendo improvisador e criou várias novas maneiras de a guitarra soar, mas foi naquele momento de “Eruption” que realmente rasgou a realidade do que era possível na guitarra eléctrica. Hendrix era fantástico e antes dele [nos anos 60] havia um monte de bandas de skiffle e um monte de guitarristas brancos de blues. Então, essa beleza e poder psicadélicos abriram tudo. E houve grandes guitarristas inovadores ao longo do caminho, mas com Eddie Van Halen entrámos numa nova era.

Porque a maioria das pessoas inspiradas por ele… acho que Eddie Van Halen disse algo como: ‘Com as minhas inovações no instrumento, estou a contar uma história. Os meus imitadores, quando estão-me a copiar, estão a contar uma piada. [Risos]’ E meio que parecia assim. Sempre que ouves alguém a fazer tapping, é meio ‘Bem, sim, alguém já domina esse território. Podes muito bem parar’.

As piores palavras que qualquer banda já ouviu foram as que ouviram os Black Sabbath na sua tour de 1978 com os Van Halen a abrir, quando o David Lee Roth saiu do palco depois do Eddie Van Halen acabar de o arrasar. David Lee Roth saiu, olhou para os Black Sabbath e disse: ‘São vocês a seguir. [Risos]’ A questão estava decidida.

Comecei a tocar meio tarde. O Eddie Van Halen deu-me um novo nível de aspiração – algo que não poderias alcançar apenas a tocar o catálogo dos Rolling Stones. Era algo que exigia trabalho! Muito trabalho. Isso foi muito inspirador para mim, dedicar-me essas horas todas. Tentei aprender alguns solos do Eddie Van Halen e coisas assim, mas a ideia de que alguém tinha se dedicado tanto… Era o mesmo tipo de dedicação ao instrumento que um músico clássico tem. Não era apenas tipo, ‘Vou pendurar a guitarra bem baixa, usar drogas e ter um corte de cabelo vistoso’.

Realmente apelou-me que Eddie Van Halen fosse um músico de músicos do mais alto calibre. Estava muito orgulhoso disso, como fã de rock. Aquele gajo podia competir com qualquer músico do planeta: músico de jazz, músico clássico, tanto com as suas habilidades de improvisação quanto com a sua composição de rock & roll, e apenas a sua atitude e a sua vibração – era absolutamente inigualável. Havia anos em que ele estava na capa de todas as revistas de guitarra. Num período de 12 meses, ele estaria na capa sete ou oito desses meses porque não havia nenhum desafiante ao trono.

Não o vi tocar ao vivo até à tour de 1984, quando estava na faculdade e a responder à vocação para ser um guitarrista. Vê-lo e a banda ao vivo no auge dos seus poderes… O momento que todos esperávamos era o solo de guitarra, onde durante 15 minutos da noite, tudo se transformava numa clínica sobre ser incrível. Ele passou por suas inúmeras inovações mágicas, parecidas com feitiços, no instrumento, mas tudo isso estava entrelaçado como um encanto. Era louco. Ele estava ali sozinho. Normalmente, é a hora de um concerto em que penso: ‘Ok, hora de ir dar uma mija’. Com Eddie Van Halen, todos ficavam absortos. Porque todos sabiam estar na presença do Mozart da nossa geração.

Vi-o pela última vez na última digressão de Van Halen, no Hollywood Bowl. Na última vez que o vi tocar, ele estava no auge das suas capacidades. E foi tão bom ver Eddie Van Halen numa noite de Los Angeles, na cidade natal onde ele re-imaginou o que rock & roll e o que uma guitarra eléctrica poderiam ser, tocando incrivelmente bem – e novos fãs e pessoas que o apreciaram durante toda a sua carreira puderam dispensar-lhe amor.

[A sua morte] é simpelsmente uma tragédia avassaladora. O meu filho, que tem nove anos [em 2020], toca guitarra eléctrica, e é um guitarrista elétrico muito talentoso. Acabámos de nos sentar e tocar o Lado Um do primeiro disco dos Van Halen. Foi incrível ouvir uma nova geração tocar por cima de “You Really Got Me” e “Running With the Devil” – as primeiras músicas que ouvi no rádio. Estávamos a ouvir a “Eruption”, e ele disse: ‘Pai, ninguém consegue tocar isto’. Eu ia dizer: ‘Bem…’ E ele disse: ‘Não, não, não. Ninguém consegue tocar isto’. E eu disse: ‘Tens razão, filho. Ninguém pode tocar isso’».

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