Megadeth

Megadeth, A Anatomia de Hangar 18

Desconstruímos a estrutura espetacular de “Hangar 18” e olhamos a história deste que é um dos três épicos vértices de “Rust In Peace”, a obra-prima dos Megadeth.

No dia 8 de Julho de 1947, o jornal do Novo México Roswell Daily Record publicou uma reportagem que alegava que um objecto voador de origem alienígena se havia despenhado nos terrenos de uma quinta local. O jornal usava o seguinte cabeçalho na notícia: «A RAAF capturou um disco voador na região de Roswell». Desde aí, extraterrestres e discos voadores ganharam ainda mais atenção da cultura popular e, naturalmente, a música não foi excepção.

No heavy metal, nenhuma outra malha que aborde o assunto teve tanto impacto como “Hangar 18”, clássico extraído do fenomenal quarto álbum dos Megadeth, editado em 1990. A complexidade das linhas de guitarra, o seu vanguardismo de execução e inovação técnica, com inúmeros solos e ritmo rapidíssimo, forçou as fronteiras do thrash metal. Apesar disso, a canção ostenta riffs tão poderosos como melodicamente memoráveis, num enorme equilíbrio entre a fúria sónica e a sua acessibilidade junto das massas – algo que se tornou uma imagem de marca dos Megadeth. E depois, claro, a temática lírica, sobre conspirações governamentais e OVNIs, captou a imaginação do público.

Se desconstruirmos a malha, embora aparentemente complexa devido às suas secções instrumentais, “Hangar 18” segue uma estrutura central que deriva do formato típico de verso-coro-verso. Os dois primeiros versos definem a trama e o cenário do infame Hangar 18, uma suposta instalação governamental norte-americana que guarda segredos relativos a alienígenas. No final do segundo verso, resumindo a perceção do protagonista, escuta-se o curto refrão: «Possibly I’ve seen too much / Hangar 18, I know too much».

A impactante intro do tema baseia-se num arpeggio de Dave Mustaine que o guitarrista explorou nos Panic (a sua primeira banda) e, mais tarde, naquele Ré menor de “The Call of Ktulu”, dos Metallica, a última malha destes com a assinatura de Mustaine. E é precisamente na introdução, na ponte instrumental – a extensa e épica secção com vários solos de guitarra, aumentando a tensão e mostrando as proezas técnicas dos Megadeth – e na sua conclusão que Dave Mustaine, Marty Friedman, Dave Ellefson e Nick Menza partem tudo!

O produtor Mike Clink relembra a criação do álbum, que contou com o lineup clássico, com os então estreantes Marty Friedman e Nick Menza: «Não poderia ter previsto o sucesso de Rust in Peace quando as músicas tinham seis e sete minutos de duração, com todas aquelas mudanças de tempo e melodias vocais. Naquela época, a rádio não tocava discos assim – eles não tocavam discos dos Megadeth. Sabia que era um óptimo disco, mas não tinha ideia do que venderia – nem um indício. Eles eram músicos incríveis. Ver Mustaine tocar todas aquelas partes rítmicas com tanta precisão, ouvir Nick Menza tocar aquelas músicas com as mudanças de tempo, o Junior [apelido de Ellefson] a palhetar o mais rápido que podia e Marty, tão melódico sem precisar esforçar-se… Eles baralharam totalmente a minha mente».

A banda acrescenta: «Fomos atraídos pelo trabalho de Mike Clink como produtor do recente álbum do Guns N’ Roses, Appettite for Destruction naquela época, mas também porque ele havia misturado o Strangers in the Night do UFO. Este álbum foi lendário e colocou o Mike numa categoria própria aos nossos olhos. Embora as músicas do Rust in Peace já tivessem sido compostas na época em que o Mike se envolveu connosco no início de 1990, a sua capacidade de ‘começar com o fim em mente’ e ter a visão e o know-how para gravar as complexidades das nossas canções fizeram dele a escolha perfeita como co-produtor do álbum Rust in Peace».

Ao lado de malhões de uma ponta à outra, com óbvio destaque para os clássicos “Holy Wars… The Punishment Due” e “Tornado Of Souls”, “Hangar 18” faz de “Rust In Peace” um dos melhores álbuns de sempre na história do thrash e do heavy metal.

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