Com António e Cleópatra de Shakespeare adaptada por John Adams como pano de fundo, entramos no cubículo do ponto da Ópera de São Francisco, onde habita o discreto Matthew Piatt, num mundo onde as ferramentas digitais ainda são inócuas.
“Ponto” é o profissional do teatro responsável por “sussurrar” as falas que devem ser repetidas, em voz alta, pelos actores. Note-se que, normalmente, está ocultado escondido por uma protecção curva, idealizada para projectar o som da sua voz para o fundo da cena. A vantagem deste recurso é que os actores ficam seguros de eventuais lapsos de memória. Embora esta estratégia já praticamente não seja utilizada no teatro “normal”, na ópera ainda vigora.
Sobre isso mesmo foi Chloe Veltman indagar e escrever um artigo para o site oficial da rádio pública norte-americana. Podem ler o texto original (ou ouvir em versão podcast) de “The hidden world of an opera prompter” ou aceitar a tradução que, de seguida, fazemos…
Para chegar ao camarote do prompter/ponto na casa da Ópera de São Francisco, Matthew Piatt passa por baixo do palco e desce por uma passagem longa e estreita. Depois, sobe uma escada de metal. «Tenho sempre de ter cuidado para não rasgar as calças», diz Piatt, enquanto se iça para um assento e pressiona um botão para se impulsionar vários metros para cima, utilizando um elevador hidráulico. Deste ponto de vista, Piatt pode ver todo o palco através de uma abertura que tem o tamanho de uma mala normal. Piatt é o prompter da produção da companhia de António e Cleópatra, uma ópera adaptada da peça de Shakespeare por John Adams, que é considerado um dos maiores compositores vivos do mundo. Tal como a peça, trata-se do romance entre o general romano e a rainha egípcia.
O prompter é invisível para o público, e pode ser apenas uma pessoa entre os cerca de 250 membros do elenco e da equipa, mas desempenha um papel importante para evitar que tudo descarrile. Dentro do seu cubículo, é tudo muito simples. Há um suporte de madeira para guardar a partitura, monitores para ver o maestro, uma ventoinha para lidar com o calor, um telefone para ligar para a direcção de cena, no caso de o áudio ou o vídeo falharem, e um pequeno teclado electrónico, convenientemente preso com velcro à lateral da caixa, para ajudar o prompter a indicar o pitch correcto – embora Piatt diga que raramente é necessário, uma vez que a maioria das pessoas que fazem este trabalho tem um ouvido e sentido de afinação perfeitos. «Estamos sempre a brincar com a ideia de colocar ali um bar e gelo, mas ainda não o fizemos», diz ele, com uma risada.
Piatt passará a totalidade de cada espectáculo durante a temporada escondido debaixo de um capuz neste pequeno recinto abafado, localizado mesmo à beira do palco, à frente e ao centro. Nem todas as produções de ópera usam ponto. Mas os artistas não usam auriculares e pode ser difícil ouvir correctamente a orquestra a partir do palco; é igualmente difícil ver o maestro sob as luzes brilhantes. O maestro ajuda a dar pistas nos momentos difíceis, falando, gritando ou acenando com os braços na sua direcção.
Piatt estudou durante meses a partitura de Adams, complexa do ponto de vista rítmico e tonal, para se preparar («Basicamente, é preciso memorizar a partitura», diz ele), de modo a poder ajudar os intérpretes a atingir as notas certas nos sítios certos. Também assiste a todos os ensaios e toma notas sobre as pistas a dar na partitura, e reúne-se com cada membro do elenco individualmente para desenvolver uma estratégia de estímulo adaptada especificamente a essa pessoa. «Quando digo às pessoas o que faço na vida, a maioria nem sequer sabe que existe esta caixa», diz Piatt. «E se sabem, pensam que ela esconde luzes ou algo do género».
Performance Pífia vs. Sensação de Conforto
As óperas de John Adams empregam forças maciças, ritmos acelerados e linhas vocais que imitam os padrões da fala humana. No entanto, as produções de estreia mundial de obras como “Dr. Atomic” e “Girls of the Golden West” – ambas realizadas sob os auspícios da Ópera de São Francisco – não utilizaram prompters para as actuações. Isto deve-se, em grande parte, ao facto de o realizador Peter Sellars, que colaborou com o compositor nestas produções, dizer que os prompters podem distrair os intérpretes de estarem no momento.
«Com um prompter, não temos qualquer base emocional, estamos apenas a tentar desesperadamente salvar a pele. E isso cria uma atuação bastante frágil». Sellars diz que prefere que os artistas improvisem se se enganarem em alguma coisa até conseguirem voltar ao caminho certo.
Mas Adams diz que algum do seu trabalho (nomeadamente António e Cleópatra) é especialmente complexo e desorientador para os intérpretes. Há poucas árias melódicas e as cenas estão repletas de movimentos rápidos e de idas e vindas entre as personagens. «A ideia de aprender todas estas entradas e trazê-las exactamente para onde pertencem é realmente uma coisa traiçoeira. Tudo o que me interessa é que os cantores estejam seguros e confortáveis», diz Adams.
Ponto nos Is
Adams escreveu originalmente o papel de Cleópatra para outra pessoa (Julia Bullock, que teve de abandonar a produção algum tempo depois, devido a uma gravidez). Assim, quando a soprano Amina Edris entrou em cena, Adams teve de começar a mudar as notas durante os ensaios para se adaptar melhor ao timbre e ao alcance da sua voz.
«Não vou mentir», confessou Edris, que nunca tinha cantado uma ópera de Adams, «é um pouco esmagador pensar, ‘Ok, logo depois de ter memorizado esta parte, agora tenho de reprogramar a forma como penso nela e aprender uma versão diferente’». Por isso se sentiu grata pela rede de segurança que é Matthew Piatt. «O Matt é a cola que mantém este espectáculo unido». No áudio captado na caixa do prompter durante um ensaio de 2022 (altura deste artigo), pode ouvir-se Piatt a dar uma deixa a Edris enquanto ela canta uma cena. Ele fala alto. Mas está direccionado para o palco, pelo que o público não ouve o prompter a dar os tons, as falas e os ritmos à Rainha do Egipto.
Mesmo os intérpretes experientes das óperas de Adams ficam aliviados com a existência de um prompter. O barítono Gerald Finley foi a estrela da produção de estreia mundial de “Dr. Atomic”, de Adams, em 2005. Agora está a interpretar António – o general romano com uma cena de morte complicada. Ele tem de cantar com a cara virada para baixo numa escadaria no palco. Dessa posição, não consegue ver o maestro ou um monitor.
«Consigo ouvir o Piatt a contar e a dar-me literalmente o compasso», diz Finley. «Não sei o que faria de facto se o Matt não estivesse lá. Sem Matt, eu não poderia morrer».
Orgulho nos Agradecimentos Privados
De vez em quando, durante a chamada ao palco, um maestro, encenador ou membro do elenco inclina-se para o capuz à beira do palco e aperta a mão do prompter em agradecimento pelos percalços silenciosamente resolvidos ou evitados. Piatt, que faz este trabalho há mais de uma década, diz que a sua maior satisfação é o reconhecimento mais privado do seu talento.
«A coisa de que mais me orgulho é quando um cantor diz: ‘Sinto-me muito seguro quando estás na caixa de comando’. O meu objetivo é que eles possam dar o melhor desempenho possível. Afinal de contas, é por isso que as pessoas vão à ópera», diz Piatt.
A pintura que ilustra o artigo: The Death of Cleopatra by Reginald Arthur [fr] (1892)
