Uma conversa com Hugo Santos, na qual o frontman dos Process of Guilt nos faz raio-X aos Godflesh e reflecte na tremenda importância dos britânicos para o underground e para a banda portuguesa que, já agora, se prepara para lançar um novo álbum.
Estávamos em 2019, no SWR Barroselas Metalfest, um dos mais antigos, respeitados e concorridos festivais dedicados às sonoridades extremas no Velho Continente. Se alguém nos dissesse, na altura, jamais acreditaríamos que só em 2022 estaríamos de regresso à minhota Vila de Barroselas, nos arredores de Viana do Castelo. Em 2019, tudo estava bem, os Saint Vitus eram os headliners, ladeados pelos Godflesh e pelos Benediction, dois nomes lendários, ambos de origem britânica, surgidos ali na transição dos anos 80 para os 90 que, cada um à sua maneira, marcaram para todo o sempre o peso industrial e o death metal. Os primeiros serão ainda mais determinantes na criação de um estilo de sonoridade em que são os pivots entre o passado, com os Swans, e o contemporâneo, com os ISIS, por exemplo.
Uma sonoridade que acabou por marcar também aquela que é uma das mais bem sucedidas e consistentes bandas do underground nacional, os Process Of Guilt. Nesse sentido, falámos com o frontman da banda lusa, Hugo Santos, que nos confessou uma profunda admiração pelos britânicos e o impacto destes no underground, no geral, e nos Process Of Guilt, em particular.
Já tiveste oportunidade de partilhar uma série de palcos com Godflesh e derivados. Qual a memória mais grata?
Enquanto seguidor da carreira de Godflesh, a dada altura, nunca pensei sequer que o projecto fosse reactivado (dado que em 2002 o Justin extinguiu Godflesh, após o lançamento de “Hymns”), quanto mais vê-los a vivo. No entanto, após a reunião de 2011 acabei por vê-los algumas vezes, sendo que a primeira vez no Roadburn de 2011 e, em particular, a potência sonora da actuação no Amplifest de 2011, coincidem com aquelas que mais impressionaram. Desde aí, já participámos algumas vezes nos mesmos eventos, como nesse Amplifest em 2011, no Roadburn em 2013 ou no Mareira Fest, no início deste ano, onde acabei por manter sempre algum contacto com o Justin. Das poucas conversas que tivemos, a melhor memória terá sido mesmo a deste ano no Mareira Fest, na Corunha, onde ele actuou na versão JK Flesh, em especial quando nos abordou dizendo-nos que há muitos anos que não via um concerto do princípio ao fim e que nós o fizemos quebrar esse registo. Acabou por tecer grandes elogios à nossa identidade, diferença e entendimento do “conceito” da sonoridade. Apesar de não constituir, propriamente, um life achievement, é sempre bom ouvir alguém, cujo longo legado nos rodeia há muitos anos, dizer-nos que não só aprecia a nossa música como lhe reconhece um carácter único.
Quando ouviste Godflesh pela primeira vez ou quando é que a cena te bateu mesmo?
O meu primeiro contacto com Godflesh foi com o “Streetcleaner”, nos últimos tempos do secundário, o que situa esta experiência algures entre 1993 e 1994, uns anos depois do disco ter saído (o que também diz muito do tempo que demorava a descobrir nova música antes do advento da internet), e claro que “bateu” logo muito. Quando estás num período de plena descoberta de novas sonoridades e referências musicais e te deparas com uma atmosfera tão densa e pesada quanto a deste disco, não há forma de não ficares impressionado num primeiro momento e viciado no seguinte instante. Não há como ficar indiferente à sequência inicial com “Like Rats” e “Christbait Rising” ou a temas como “Life is Easy” e “Locust Furnace”.
Qual o teu álbum favorito deles e qual consideras mais determinante para a cena underground?
Sem dúvida que o “Streecleaner” é o álbum mais marcante para o underground, seja porque é aquele que levou mais bandas a perseguirem este tipo de sonoridade (como, por exemplo, Pitch Shifter ou ISIS), ou porque, juntamente com o primeiro título homónimo, acabou por definir a sonoridade de todo o projecto. É sempre complicado mencionar um álbum preferido, em especial quando se trata de uma banda cujo percurso sigo há tanto tempo, mas da ampla discografia destaco, claro, “Streecleaner” e, também, por motivos diferentes “Songs of Love and Hate” e “Hymns”. Este último, em particular, é talvez o que nos últimos anos mais vezes ouvi, dado representar uma sonoridade um pouco mais crua e orgânica no contexto de Godflesh, ao que não será alheia a colaboração com o Ted Parsons na bateria.
O que achaste do último, “Post Self” [2017]?
Penso que é um disco diferente na discografia de Godflesh. Representa uma descolagem significativa do penúltimo, “A World Lit Only By Fire”, que, sinceramente, me agradou bastante e foi um bom regresso em forma de disco de originais. Talvez por estar à espera de algo mais agressivo, acabei por achar o “Post Self” um álbum mais introspectivo, menos directo e sem a agressividade do anterior, mas, simultaneamente, repleto de outro tipo de nuances mais próximas de outros projectos do Justin que não sobressaem em apenas uma ou duas audições do disco.
É algo consensual dizer que Godflesh, ou pelo menos o Justin Broadrick, tem um forte impacto em Process Of Guilt. O que te atrai tanto neles?
Há muitos aspectos que me atraem na sonoridade em que Godflesh se insere ou, pelo menos, num tipo de sonoridade que apareceu com maior força na transição 80’s/90’s e os Godflesh representam, sem dúvida, um dos projectos que melhor transportou essa estética até aos nossos dias. O que me atrai nesta sonoridade e que, de um modo ou outro, também encontramos no som de Process of Guilt é, precisamente, a musicalidade abrasiva, o groove quase marcial sem nunca assumir uma cadência demasiada frenética e a temática lírica de pendor quase sempre apocalíptico. O Justin aborda esta sonoridade em muitos dos seus projectos sendo, claro, Godflesh o mais evidente, mas com o passar dos anos e depois de explorar esta vertente musical mais a fundo, considero que é, também, vital perceber a importância de bandas como Killing Joke ou Swans (na sua fase inicial) na formação desta estética industrial mais ligada ao metal.
Qual o álbum de Process Of Guilt que dirias ser mais “Godfléshico”?
Não diria que temos um álbum mais “godfléshico”, mas, sim, que há momentos onde talvez a sonoridade mais industrial sobressaia sobre outras características da nossa música, resultando em temas que poderão ser mais aproximados a essa referência. Diria que pela toada mais marcial ou mesmo industrial do disco, talvez o “Black Earth” enquanto um todo esteja mais próximo dessa atmosfera. Mas há momentos nalguns temas ao longo da nossa discografia em que, de um modo ou outro, lhe reconhecemos esse cunho mais industrial, como sucede com temas como “Lava”, “Fæmin”, “Liar” ou “Black Earth”.
Quanto aos Process Of Guilt, o grupo foi, como tantos outros, surpreendido pelo «início do confinamento de 2020», no momento em que se encontrava nas «últimas etapas do processo de composição, pelo que a entrada em estúdio para a gravação de um novo disco estava inicialmente agendada para o final do primeiro semestre de 2020», confessou Hugo Santos, recentemente, à LOUD! Explicando ainda que o «processo de composição é sempre na sala de ensaio, onde tocamos e reagimos à música em conjunto. As diversas restrições da segunda metade de 2020 e do início de 2021 acabaram por interromper este processo e protelar a gravação do disco até ao final do verão passado». A grande notícia é que, refere o músico, há «um disco novo, pronto a ser editado. Em breve certamente divulgaremos mais detalhes sobre o mesmo».

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