Em “Flowers Of Evil”, Kristoffer Rygg, novamente sob a produção de Martin Glover (Killing Joke), segue a estética de “…Julius Caesar” e mergulha mais profundamente no mundo colorido da synth pop.
O décimo-sexto álbum dos Ulver, “Flowers Of Evil” é simultaneamente incrível e apenas mais um capítulo na já longa tradição da banda em reinventar-se de forma tão radical quanto natural. Formados na fervura da segunda vaga do black metal norueguês, Kristoffer Rygg e companhia nunca aceitaram ficar presos a um rótulo. O trilho que começaram em meados dos anos 90, com discos que oscilavam entre o gélido extremismo metálico e a música de câmara, foi-se transformando numa das mais fascinantes viagens da música contemporânea.
Do sinfonismo obscuro de “Themes from William Blake’s The Marriage of Heaven and Hell” à electrónica soturna de “Perdition City”, dos recitais acústicos quase pastorais à pulsação techno que por vezes se intrometeu nas suas obras, Ulver sempre usaram a experimentação, orquestral e electrónica, como matriz sonora. “Flowers of Evil”, editado em 2020, chegou precisamente no momento em que a própria história da banda era revisitada no livro Wolves Evolve: The Ulver Story, publicação de 150 páginas com entrevistas e fotos de arquivo, quase como se fosse necessário um documento físico para enquadrar a metamorfose constante do grupo.
“Flowers Of Evil” não se afasta muito de “The Assassination Of Julius Caesar” e isso já é dizer muito sobre a qualidade deste novo trabalho. Aliás, neste álbum a banda mergulhou ainda mais fundo no universo synth pop, nos beats, groove nas sequenciações, robustez nos baixos e swing nas guitarras, fortes ganchos melódicos e refrões bem demarcados. Tal como no álbum de 2017, a produção está a cargo de Michael Rendall e Martin Glover (baixista dos lendários Killing Joke). Christian Fennesz empresta guitarras e sintetizações ao tema que abre o álbum, “One Last Dance”.
É certo que qualquer banda pode, a determinada altura, optar por abandonar o seu som primordial e procurar novas linguagens. A diferença é que raramente essa mutação soa orgânica, natural e carregada de um groove que parece sempre ter estado lá, à espera de ser descoberto.
Poucas, muito poucas formações oriundas do metal extremo conseguiram realizar esta transição com a elegância, a subtileza e até a despreocupação que os Ulver demonstram. Ao contrário de tantos casos em que a mudança de estilo soa a cálculo de mercado, nos Ulver e neste “Flowers Of Evil” sente-se antes um instinto artístico, uma pulsão inevitável de quem já não tinha nada a provar a ninguém.
Outra faceta interessante de “Flowers Of Evil” é a sua capacidade de dialogar com a cultura pop sem abdicar da densidade conceptual. A lírica dos Ulver continua oblíqua, cheia de imagens poéticas e referências literárias, mas é apresentada em canções que se poderiam ouvir tanto numa pista de dança alternativa como numa sessão de audição atenta, em silêncio. Essa é, talvez, a maior vitória do álbum: mostrar que arte superior e prazeres aparentemente fúteis podem coexistir sem conflito.
Não é um disco surpreendente para quem acompanha os noruegueses há décadas — afinal, já todos nos habituámos a esperar o inesperado. O que surpreende é que, mais uma vez, “Flowers of Evil” seja simplesmente tão bom. Há nele uma confiança madura, uma banda que já percorreu inúmeras vidas musicais e que, em vez de se perder em dispersões, encontrou um lugar de convergência perfeito.
Para quem nunca ouviu Ulver, este trabalho é um soberbo pórtico de acesso. Para quem os segue desde os tempos de “Capitel I: I Troldskog Faren Vild”, é mais uma prova de que a metamorfose, quando guiada por verdadeira intuição artística, pode ser tão coerente quanto qualquer fidelidade a um género.

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