Em The Long Road North, os Cult Of Luna continuam a sua ascética e espartana busca pelo peso, confirmando-se sem grande margem para dúvidas como os mais poderosos titãs do post metal.
Apesar do incontável número de bandas que seguem as suas linhas mestras, a coroa monárquica do post-metal assenta ainda firme sobre o nome dos Cult of Luna. Desde o início dos anos 2000 que o colectivo de Umeå vem construindo uma obra que, sem nunca trair as coordenadas fundamentais do género, tem sabido depurar a linguagem, tornando-a menos caótica, mais arquitectónica, e sobretudo mais emocional. Se os primeiros discos eram tempestades compactas, quase claustrofóbicas, os trabalhos mais recentes revelam um sentido de espaço e de respiração que poucos conseguiram alcançar sem perder intensidade.
Em 2019, A Dawn to Fear sucedeu ao trabalho conjunto com Julie Christmas, Mariner, um álbum que mostrou uma faceta mais dramática e quase operática da banda. Já em Novembro de 2021, os suecos anunciaram o lançamento do seu décimo longa-duração (o nono, se descontarmos esse encontro com Christmas), intitulado The Long Road North. Chegou no dia 11 de Fevereiro de 2022, através da Metal Blade Records.
O álbum sucede directamente ao EP The Raging River, editado nos primeiros meses de 2021, que funcionou quase como uma ponte — não apenas cronológica, mas estética — para este novo capítulo. Se esse EP parecia insinuar uma contenção mais meditativa, The Long Road North expande novamente o horizonte, recuperando a dimensão épica que sempre foi uma das marcas mais reconhecíveis da banda.
«O longo caminho para o norte é uma longa estrada para casa. Um caminho ditado por uma chamada que penetra nas rochas e ecoa pela floresta», elaborou o vocalista e guitarrista Johannes Persson, sobre o conceito de The Long Road North. «Ele flui sobre todos os lagos, acelerado pelo vento. Quando chega até nós, toda a gente percebe que está na hora. É o momento de seguir em frente. Até podemos não saber onde nos vai levar, mas confiamos nele. Com os olhos erguidos em direcção ao sol da meia-noite, ele puxa-te para mais perto. A estrada é longa e o fim é incerto».
Esta imagética não é mero ornamento poético. O Norte, em Cult of Luna, nunca foi apenas um lugar: é uma condição espiritual. Há nestas músicas uma sensação persistente de distância, de silêncio, de confronto com a vastidão — não a vastidão romântica de paisagens idílicas, mas a vastidão austera, quase mineral, onde o ser humano se torna pequeno e, paradoxalmente, mais consciente de si mesmo. A tundra gelada como o deserto bíblico, onde os profetas eram chamados por Deus, para serem purgados.
The Long Road North parece mover-se nesse espaço liminar entre a introspecção e a transcendência, entre o peso físico do som e a leveza quase hipnótica de certas passagens atmosféricas.
Logo na abertura de The Long Road North, “Cold Burn” estabelece esse referido espaço com uma progressão lenta e inevitável, como uma marcha que avança sem pressa, mas também sem hesitação. As guitarras erguem-se em camadas, a bateria marca um pulso que é ao mesmo tempo orgânico e monumental, e a voz de Persson surge mais como um elemento de textura do que como um veículo narrativo tradicional. É, afinal de contas, essa forma de composição que os Cult of Luna têm vindo a aperfeiçoar ao longo dos anos: a canção como paisagem, não como estrutura fechada.
Sobre “Into The Night”, por exemplo, o guitarrista Fredrik Kihlberg referiu: «É sobre a procura de algo ou alguém que está perdido. É sobre estar num estado entre o consciente e o inconsciente, desperto e onírico. Ver, ouvir e experimentar coisas e não ter a certeza se isso é real ou imaginário». Essa ambiguidade traduz-se musicalmente num jogo subtil entre tensão e suspensão, em que os momentos de maior peso não anulam, antes intensificam, a sensação de deriva.
Um dos aspectos mais notáveis do álbum é precisamente a forma como trabalha a dinâmica, como reafirma a importância do silêncio e do espaço em composições que poderiam facilmente cair na tentação da saturação permanente. As malhas de The Long Road North demonstram a mestria que os suecos adquiriram na arte do crescendo. Poucos grupos conseguem prolongar uma ideia rítmica ou melódica durante tantos minutos sem perder a atenção do ouvinte; os Cult of Luna fazem-no através de pequenas mutações, de alterações subtis de timbre e intensidade que, quase sem darmos conta, transformam completamente a paisagem sonora. Quando a catarse chega, não é um golpe súbito, mas o resultado de um processo paciente, quase inevitável.
Carregado com uma tremenda parede de amplificação e com uma deslumbrante densidade atmosférica, The Long Road North é um discão de ambientes épicos, que vem, uma vez mais, sublinhar o peso avassalador e a intensidade da arte do colectivo sueco, que após mais de duas décadas no activo se encontra num momento criativo fulgurante. E de facto, The Long Road North possui peso e melodia como só é possível verificar neste espectro musical, esta que é a mais recente diligência numa discografia que compreende peças essenciais como Salvation, Somewhere Along the Highway ou Vertikal.
Mas talvez o mais impressionante em The Long Road North seja a sensação de maturidade serena que o atravessa. Não há aqui qualquer ansiedade de provar relevância, nenhuma tentativa de acompanhar tendências ou reinventar-se à força. Os Cult of Luna soam como uma banda que encontrou o seu próprio verbo. É por isso que continuam a ocupar um lugar singular.

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