As guitarras dos Ghost em Lisboa. A banda sueca parece ter abraçado o som clássico da Fender. São modelos fáceis de identificar, mas com mods que importa decifrar na ressaca de um concerto extraordinário.
Os GHOST anunciaram na manhã de 28 de Outubro de 2024, nas suas redes sociais, uma tour mundial, a decorrer neste ano. A etapa europeia da digressão incluiu uma passagem pela MEO Arena, em Lisboa, no dia 29 de Abril de 2025. A digressão teve início a 15 de Abril em Manchester, no Reino Unido, e encerra a 24 de Maio, em Oslo, na Noruega. Depois a tour arranca nos Estados Unidos, a 9 de Julho, em Baltimore, Maryland, e termina a 16 de Agosto, em Houston, no Texas. Uma tour com a particularidade da proibição do uso de telemóveis.
«Quando uma banda proíbe o uso de telemóveis, relega fotógrafos para um fosso a meio do espaço ocupado na plateia da MEO Arena e convida o público a entrar de mãos vazias e olhos bem abertos, está a fazer mais do que manter o suspense — está a declarar guerra à previsibilidade. Foi assim que os GHOST subiram ao palco em Lisboa, num regresso envolto em secretismo absoluto. O pano caiu, mas todos os dispositivos electrónicos foram encerrados em bolsas invioláveis.
O espectáculo aconteceu, mas permanece guardado numa espécie de cofre simbólico, acessível apenas aos que o testemunharam. Para os restantes, resta a promessa — e, neste caso, é tudo menos vazia». A reportagem completa, da autoria do José M. Rodrigues, pode ser lida na LOUD!
Por aqui, vamos tentar apurar as principais guitarras usadas pelos Nameless Ghouls, os músicos que acompanham Tobias Forge nesta Skeleton Tour 2025. A melhor forma de o fazer é a recuar um pouco no tempo. Nos primeiros anos, os Ghost e os Nameless Ghouls apoiavam-se, principalmente, em guitarras Gibson para criar o seu som pesado e distorcido.

Uma escolha proeminente nas primeiras gravações e actuações ao vivo dos Ghost foi a Gibson RD Artist. Esta guitarra eléctrica de corpo sólido dos anos 70, conhecida pelo seu aspecto agressivo e pelos potentes humbuckers, forneceu uma base sólida para os riffs pesados e secções rítmicas primordiais da banda. O corpo em mogno da RD Artist e a construção do braço fixo oferecem excelente sustain e clareza tonal, perfeitos para os sons distorcidos predominantes nos primeiros álbuns do Ghost, “Opus Eponymous” (2010) e “Infestissumam” (2013).
Na ressaca de “Meliora” (2015) e da altamente publicitada batalha legal com um antigo membro, as escolhas de guitarra dos Ghost deram uma volta significativa. A banda abandonou as Gibsons e abraçou a Hagstrom Fantomen, de fabrico sueco, cujos pickups e construção oferecem um som mais brilhante e mais articulado em comparação com os humbuckers mais pesados da Gibson RD Artist. Esta mudança tonal alinhou-se com maior ênfase na melodia. O seu design aerodinâmico adequava-se à imagem da banda e os Ghost até colaboraram com a Hagstrom num modelo Fantomen de assinatura, de edição limitada.

São modelos com braço em cinco camadas de maple, de construção neck through no corpo em mogno. A escala de ébano é percorrida por trastes de aço inox e possuem marcadores laterais Luminlay. Os potenciómetros são CTS e o hardware é Switchcraft, com excepção dos afinadores Schaller. Os upgrades feitos pelos guitar techs dos Ghost incluem ainda pickups cerâmicos Lundgren Black Heaven.
Alpha Venturer
Com a saída de um dos principais Nameless Ghouls e o lançamento do álbum, “Impera” (2022), as escolhas de guitarra dos Ghost receberam uma abordagem ainda mais diversificada e aí emergiu um clássico incontornável, com um toque contemporâneo: a Fender Stratocaster de Alpha Ghoul.
O actual guitarrista principal dos Ghost, conhecido como Alpha Ghoul (que dizem ser Per Eriksson, de Katatonia e Bloodbath), incorporou as Fender Stratocasters na sua configuração ao vivo. As Stratocasters, conhecidas pela sua versatilidade e pickups single-coil brilhantes e articulados, oferecem um claro contraste com os sons mais quentes da Hagstrom Fantomen. Isto permite uma maior variedade de texturas sónicas, reflectindo potencialmente as influências do rock progressivo e do hard rock e AOR exploradas em “Impera”. O Alpha Ghoul até usa Stratocasters modificadas, modelos EOB Sustainer Stratocaster, com características personalizadas como sistemas de tremolo Floyd Rose.
Na passagem da Skeleton Tour dos Ghost por Lisboa, podemos assegurar que houve uma mudança significativa neste aspecto. A guitarra ostenta agora um sistema Floyd Rose RT200N Rail Tail Narrow Tremolo, com o restante hardware preto. Os pickups são uma configuração HSH de Hot Rails – apesar da sua dimensão, este pickups são humbukers – a ladear um single coil aparentemente de fábrica. Com um switch de cinco posições, é possível configurá-la para que, além de ligar/desligar os captadores individuais, as posições intermediárias possam alternar entre uma das duas bobinas de um humbucker e a bobina simples (single coil) do meio.




Como a bobina do meio é tipicamente ligada fora de fase com as outras duas, a combinação das duas bobinas simples (uma de um dos humbuckers e a do meio) acaba por rejeitá-lo como um humbucker, mas como as bobinas estão fisicamente tão distantes uma da outra, mantém-se a qualidade tonal fina e vítrea de um pickup single coil sem o ruído. É o melhor dos dois mundos.
Já os toggle switches na Strat número 2 do Alpha Ghoul, entre muitas coisas que poderão fazer, podem permitir que o guitarrista elimine uma das bobinas nos humbuckers da ponte ou do braço sem acrescentar o pickup do meio, que é mais ruidoso, mas ainda mais vítreo e brilhante e parecido com a Strat, e bom para passagens sem distorção.
Também é possível que sirvam para inverter a fase ou refazer o esquema dos humbuckers para que as bobinas sejam ligadas em série (dando menos ganho de agudos e mais “cremosidade”) ou em paralelo (menos ganho e mais agudos, mas não tanto quanto as posições de troca de pickups intermediários explicadas acima). Talvez ou façam outra coisa completamente diferente. É difícil saber, mas o Alpha Ghoul está preparado para uma tonelada de opções tonais.
Partcaster
As Hagstrom Fantomen ainda surgem aqui e ali, mas no que diz respeito a offsets, agora o guitarrista de ritmos dos Ghost usa primordialmente um modelo Fender Jazzmaster. Isso já era notório desde o vídeo oficial de “Lachryma”, por exemplo. No entanto, as conclusões fáceis ficam-se por aí. Afinal, mais que uma Jazzmaster, parece que estamos diante de uma Partscaster.
Uma Partscaster é aquilo a que se chama uma guitarra cujo corpo e braço mão foram originalmente conjugados sob a tutela da FMIC. E este Nameless Ghoul em particular deixa a ideia de usar como base um modelo Custom Shop ou American Professional, com uma combinação pessoal de componentes, como a cabeça em cor condizente e, mais importante, uma combinação Mastery Bridge/Trem e os maiores elogios da comunidade de guitarra vão para o Mastery Vibrato (Tremolo).
Uma ponte Mastery é uma excelente solução para afinação standard (no caso dos Ghost, uma tónica mais baixa, em D), dotando o instrumento de uma quantidade substancial de sustain, acrescentando ainda maior cintilação ao som (dizem). A Jazzmaster tem um espaçamento entre as cordas algo largo e uma ponte Mastery também atenua isto: os saddles estão divididos em duas partes, uma para as três cordas superiores e outra para as três inferiores. Estes blocos podem ser ajustados para a frente e para trás com dois parafusos, para definir ambos em diferentes ângulos e posições.




Jazz
Já o baixista, uma vez mais recuando no tempo, começou por usar um baixo Ibanez Iceman. Os amplificadores sentados em ambos os lados do palco eram Ampeg SVT4 Pros e respectivas colunas 8×10. Em 2011, o Nameless Ghoul “Water” mudou o baixo para um Fender Precision branco com um pickguard preto. Este baixo também foi visto em 2012, quando os Ghouls usavam roupas brancas. Nesse Verão, no entanto, o Precision foi trocado por um Fender Deluxe Jaguar Bass, com um pickguard branco e incrustações em bloco perlado, regressando logo em 2013.
Já em 2016, Water, o nosso elemento baixista, está completamente desaparecido e quando regressa aos Ghost, ainda com o mesmo Precision branco, parece ter encolhido em comparação com os outros Ghouls e agora exibe uma silhueta mais feminina. No entanto, neste período, durante as interpretações de “Ghuleh/Zombie Queen” e “Mummy Dust”, o Precision é trocado por um Fender Jazz Bass preto com dois humbuckers de bobina dividida. Foram as primeiras aparições deste icónico modelo.
Após o lançamento de “Prequelle”, surgiu um novo Fender Jaguar Standard, em branco com um pickguard preto, que assumiu as principais funções de palco até que o Fender Jazz branco tornou-se o principal baixo de digressão no final do ciclo de “Prequelle”. Assim se mantendo em “Impera” e “Skeletá”. Mais precisamente, trata-se de um Fender American Professional Jazz Bass, com um braço de maple reforçado e sólido, bem como uma ponte vintage de alta densidade.
Não referimos os amplificadores, afinal os Ghost deixaram de os ter visíveis em palco a partir de 2013. Sim, a banda passou a usar sistemas modelling amps, nomeadamente os Axe FX III, da Fractal Audio Systems.
