Em “Silver Surfer: Requiem”, J. Michael Stravzynski e Esad Ribic assinam uma das maiores histórias da Marvel – a morte de Norrin Radd, o trágico personagem que Jack Kirby criou como Cristo numa prancha de surf cósmica.
Obviamente que a morte dum super-herói ou vilão, no mundo dos comics, raramente assume um carácter definitivo – há sempre um ressurgimento cíclico, afinal os próprios comics são considerados por muitos uma forma de mitologia moderna. E pouco depois da sua edição, “Silver Surfer: Requiem” foi dito ser uma espécie de “What If…?”, um conto de Uatu the Watcher, de Norrin Radd.
Todavia, esse detalhe não invalida a fantástica história que J. Michael Straczynski constrói aqui, suportada pela arte única e pouco usual nos comics norte-americanos de Esad Ribic. Em 2007, quando este título foi editado, por aqui só o conhecíamos do seu trabalho na minissérie “Loki”. E se as paisagens cósmicas neste título são arrebatadoras, o classicismo com que é desenhado o Spider-Man, inspirado na obra de Steve Ditko, por exemplo, não é menos impressionante.
O motivo da falência do revestimento prateado de Norrin Radd não é muito explicado, a morte em si permanece misteriosa. Esse factor, desde logo, é um dos grandes pilares da história. O que o roteirista nos mostra é precisamente uma exploração do interior do personagem prateado, que sempre foi uma espécie de mistura entre o pensamento neo-platonista e a figura de Cristo. Sem pudores relativamente a esse respeito, no final é observado um período de luto de três dias em Zenn-La, planeta natal de Norrin Radd. Até esse detalhe é fundamental nesta série – não há qualquer super-vilão incluído, a única ameaça é a maior de todas, a morte.





Homem-Deus
Como se diz, «os bons artistas pedem emprestado; os grandes artistas roubam». A Marvel sempre seguiu essa máxima e, em alguns casos, sem sequer se dar ao trabalho de mudar o nome (estão correctíssimos se estão a pensar no Thor). Dessa forma, as suas criações acabam por se assemelhar a mitologias ou evocar figuras religiosas. O Surfista Prateado tornou-se o chamado «Cristo numa prancha de surf» (Dalton 2011, p. 179), porque a intenção original foi criar uma história sobre esperança. Ainda mais se pensarmos em Galactus como o Deus do Antigo Testamento, capaz de destruir mundos, e pode ser visto como o “pai” dos poderes de cósmicos de Norrin Radd.
As semelhanças narrativas e de carácter de Norrin Radd com as de Jesus Cristo, sejam intencionais ou fortuitas, são potencialmente o resultado de soluções de enredo obtidas a partir de uma crença de que o amor sacrificial conquista tudo – ou como o Marco Arnaudo colocou de forma mais eloquente:
«As semelhanças entre o Surfista Prateado e Jesus Cristo são mais evidentes nos seus papéis como um salvador sacrificial do mundo, como uma demonstração do amor supremo, como um ser superior encarnado num estado humilde na terra, e como um resistente às encarnações do mal. Os paralelos entre ambos surgem quando se abordam as noções de sofrimento, perfeição e divindade absoluta.
Se o Surfista Prateado representa Jesus, ele aponta tanto na direcção do Messias sofredor de Nazaré na sua primeira vinda, como na do libertador apocalítico do mundo, lutando contra os macro-males na sua segunda vinda. O seu grande poder, o seu ethos celestial, o seu altruísmo e a sua pureza conduzem-nos a uma Cristologia do alto: Jesus como o homem-deus.
Por outro lado, as imperfeições do Surfista, a compaixão por Shalla Bal e o sofrimento pela sua situação num paraíso perdido remetem-nos para o que há de mais humano no herói. Assim, o Surfista Prateado é, ao mesmo tempo, divino e humano, apontando-nos novamente para a encarnação de Cristo. O Surfista continua a ser um dos exemplos mais claros do homem-deus na banda desenhada». (Arnaudo 2013, p. 166).
Na sua essência, quando se retiram todos os elementos de ficção científica, os nomes disparatados, os planetas falsos e os vilões gigantescos – o Surfista Prateado é a personificação da esperança. Norrin Radd é um estranho no nosso mundo e não tem qualquer preconceito inerente, nem motivações pessoais para o proteger da destruição; em vez disso, a sua razão para proteger a Terra advém da sua crença de que toda a vida é sagrada e digna de ser preservada.
Norrin Radd sacrifica tudo o que conhece simplesmente por princípio moral e ético, porque se não está disposto a sacrificar o que lhe é querido para proteger a vida noutro planeta, como pode esperar que, algures no universo, alguém esteja a fazer o mesmo sacrifício por outras vidas? O seu sacrifício não só dá esperança aos outros, como também dá a si próprio algo para esperar.
Requiem
Então, nas quatro partes da série, vemos um pacifismo estóico em Norrin Radd confrontado com o tempo que lhe resta para viver, em vez de sufocar ante a eminência do fatalismo mortal: «Here is the cycle of life writ large. To be born in fire and live in the bright flame of our passions, illuminating the world around us. We live and die in fire, knowing that when we die, we are reborn in the minds and spirits of those who will follow the path we have lit for them across the ages. The path that one day calls all of us home at the dying of the light».
É sempre nesse sentido duma vida vivida plenamente, com todas as forças, que decorrem os quatro números. Enquanto Norrin Radd visita os amigos, para se despedir, os seus diálogos são reflexões antropológicas profundas, demonstrativas da pungente escrita de Straczynski aqui conjurada. São esmagadores o seu desejo de regressar a casa, tão humano, e a sua mágoa por não conseguir um último acto omnipotente para salvar uma Terra sempre auto-destrutiva: «People can’t change what they are until and unless they understand what they can be», exorta o sempre tragicómico Spider-Man.
Mais adiante na narrativa, no regresso a casa, a excelente história mostra-nos sempre um autor que percebe perfeitamente aquilo que o Silver Surfer e os seus poderes significam, o maior de todos o seu altruísmo forte e romântico, que lhe dão uma autoridade serena. Brilhante o encontro com as civilizações em guerra, a mensagem que advém das directrizes sábias e tocantes do personagem principal: «If sacred places are spared the ravages of war… then make all places sacred. And if the holy people are to be kept harmless from war… then make all people holy».
Muita gente considera a banda-desenhada uma forma menor de arte, contudo livros como estes quatro volumes de “Silver Surfer: Requiem” são um testemunho fortíssimo de que em muito poucas manifestações artísticas podem a escrita e a pintura ser tão emocionantes e comoventes.





Um pensamento sobre “A Morte de Norrin Radd”