Tó Pica

Tó Pica, As Diferenças Entre Amps Valvulados e Digitais

Dono de uma prolífica e já longa carreira, guitarrista de enorme reputação no submundo da música pesada (e não só) nacional e um dos nossos shredders e malandros preferidos, Tó Pica também deixa uma reflexão no perpétuo debate entre amps analógicos e digitais, ponderando sobre o que ainda separa ambos.

Numa era em que as novas tecnologias melhoram a cada dia que passa, a ideia de que os amplificadores a válvulas são indubitavelmente superiores aos seus equivalentes digitais está a começar a ficar desgastada, especialmente quando se sabe que, por exemplo, nomes como Dave Murray, dos Iron Maiden, e Dave Mustaine, dos Megadeth, fizeram a mudança.

Recentemente, num exclusivo com a ROMA INVERSA, Alex Skolnick, shredder de elite, nos Testament e no heavy metal ou em vários projectos jazz, debruçou-se sobre os pesos-pesados da modelação digital (Neural DSP, Kemper, Fractal, Line 6 e outros) e reflectiu sobre a evolução dos simuladores de amplificadores e o futuro dos amplificadores tradicionais.

Também John Petrucci, dos Dream Theater, tem estado a trabalhar no domínio digital há já algum tempo e lançou nos últimos tempos a sua própria marca de software de guitarra, chamada Tonemission, ponderando posteriormente nos motivos para isso e nas diferenças entre modelling amps e amplificadores válvulas.

Ainda que o digital venha a aproximar-se do analógico e seja cada vez mais consensual, o debate perpetua-se (e é natural que assim seja). Não se trata de purismo ou polaerização, mas de identificar as mais-valias de uma e outra opção. Nesse sentido, também o shredder nacional Tó Pica se debruçou sobre o tema. Numa reflexão nas suas redes sociais, assume-se como um defensor dos amplificadores “reais” e aponta o que ainda separa ambas as tipologias. A partir daqui, as palavras são do Tó Pica…

Simulação

Sabem o que é uma simulação, certo? «Substantivo feminino. Acto ou efeito de simular. Fingimento. Disfarce. Falsa aparência. Imitação. Teste ou experiência que pretende reproduzir as condições de evento ou situação real, como forma de treino ou preparação (ex.: simulação de crédito; simulação de seguro). = SIMULACRO», in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023.

Num tom mais sério, todos precisam de se acalmar. Tudo tem o seu lugar, mas definitivamente, um amplificador de válvulas é um instrumento totalmente diferente de um simulador ou de um profiler. Sim, um amplificador de válvulas é um instrumento por si só. Assim como uma guitarra, reage a tudo ao seu redor, à electricidade, à tua forma de tocar, às condições climáticas e atmosféricas, ao meio ambiente em que está. Um amplificador de válvulas reage a tudo isso tanto quanto a guitarra. Então, precisas de aprender a tocá-lo também…

Um simulador ou profiler é um instantâneo de um momento, como um frame num filme. Não se pode simular todas as variáveis que existem quando se toca uma corda! Cada vez que se toca a corda, gera-se uma quantidade diferente de voltagem.

O rig de Tó Pica (Novembro 2023).

Tenho simuladores dos amplificadores de válvulas autênticos que possuo (Soldano, Marshall Plexi, Mesa Boogie Mark Series e Laney) e posso assegurar-vos que não têm o mesmo som. Podem ser semelhantes para quem está a ouvir, mas tocar é totalmente diferente, especialmente se fores um instrumentista dinâmico e gostares de obter todos os tipos de sons com apenas um canal, via botão de volume da guitarra e alguns pedais.

E depois há a questão da latência. Não tem todos os harmónicos, resposta dinâmica e calor que o sistema analógico de um amplificador de válvulas possui. É como compressão em fita relativamente à compressão digital. Costumava gravar álbuns numa Studer de fita de duas polegadas e a compressão era totalmente diferente.

Speaker

E todos parecem esquecer um ponto fulcral, o que faz mais diferença no som de um amplificador e a maior ferramenta de moldagem de som de todas: a coluna de altifalantes. O que se ouve como o som de guitarra é uma combinação de coisas, mas a coluna e os altifalantes são as cordas vocais do amplificador.

Podem usar Impulse Responses (IR) à vontade, mas, aquele pedaço de cartão que transforma electricidade em som, precisa de ar para cumprir a sua função. Portanto, a densidade do ar, o ambiente, a voltagem, a humidade, a ressonância e a própria caixa da coluna fazem toda a diferença na moldagem das ondas sonoras no som final. É física básica. Nem é uma opinião, são factos.

E ao vivo é ainda pior, a menos que estejam a tocar em estádios. Se tocarem em recintos médios ou pequenos, geralmente não há um campo de som à frente, então a audiência nas primeiras filas só ouvirá a bateria (algum tipo de teste de som da bateria durante todo o concerto), porque o sistema de PA, geralmente, está acima da sua cabeça e atrás de si.

Essa é mais uma questão. Com um simulador ficam a depender do sistema de PA (e eles são maus em alguns lugares) e seja lá o que for que está equalizado para entregar TODO o som da guitarra e esperar pelo melhor. Se o auricular in-ear falhar, estás perdido e lá se vai o equilíbrio. Vejo isso acontecer mais frequentemente do que se poderá imaginar. Cai por terra a treta da ‘consistência’…

Budget

A principal razão pela qual músicos em digressão usam simuladores é porque dessa forma eles podem reduzir o tamanho, a conveniência e os custos de transporte – não precisam alugar uma carrinha extra e os custos de transporte de avião são obscenos actualmente. Mesmo para bandas mainstream, isso é importante hoje em dia. Podem dizer o que quiserem, mas essa é a principal razão.

Por algum motivo, as mesmas bandas e os mesmos músicos usam amplificadores reais no estúdio. Se os simuladores fossem iguais ou tivessem o mesmo som, ninguém faria isso, certo?! Se apenas tocam no quarto, vão em frente, trata-se de uma boa ferramenta para demos ou para levar no laptop em viagens.

Também não me convenço com o argumento «o que os YouTubers disseram sobre isso» e tudo mais. Eles são pagos para isso e têm que ganhar a vida, mas eu já tocava música ao vivo muito antes de existir o YouTube. Portanto, usem os vossos ouvidos! Para terminar, pergunto-me se um simulador/profiler fosse tão grande e pesado quanto um amplificador real, se ainda o usariam e diriam que soava igual a um amplificador de válvulas autêntico.

A foto do Tó Pica que abre o artigo é do Rui M. Leal.

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