O álbum maldito dos Van Halen, no qual a banda atravessou o inferno, sob as perspectivas de Gary Cherone, Michael Anthony e de Eddie Van Halen. “Van Halen III” permanecerá sempre como um testemunho da tenacidade musical das lendas californianas.
Lançado em 1998, o único álbum dos Van Halen com a participação do vocalista Gary Cherone, é geralmente considerado como o pior dos seus 12 LPs. «Uma experiência triste», nas palavras de Michael Anthony. O baixista fundador da banda fala sobre esse frustante esforço, que foi o último álbum que gravou com a banda, numa nova entrevista no Mitch Lafon & Jeremy White Show: «Nem gosto de falar sobre isso, no processo de gravação desse álbum, porque foi um caos. O Alex Van Halen estava a passar por um divórcio nessa altura e o Ed tocou bateria em algumas partes. Quero dizer, foi a coisa mais demente que a banda fez até aí».
Anthony observa que «houve apenas um par de músicas em todo o álbum que nós, como uma banda real, tocámos juntos no estúdio. É triste porque poderia ter sido muito melhor». Por maior que seja o fanatismo (e somos bem fanáticos pelos Van Halen na ROMA INVERSA) e mais dedicada que seja a apologia, não há como negar que “Van Halen III” poderia ter sido muito melhor.
Para o bem e para o mal, “Van Halen III” será sempre um testemunho da resiliência e evolução artística da banda, marcada por um período de crescimento pessoal, experimentação e exploração criativa. Em muitos aspectos, representou uma ruptura com o som tradicional da banda, tanto em termos de formação como de estilo musical. Após o seu lançamento, a sua recepção foi pouco acolhedora, mas a sua significância reside no seu papel como catalisador para introspecção e transformação dos membros da banda.
O contexto que levou à criação de “Van Halen III” foi marcado por desafios pessoais e tensões internas dentro da banda. As palavras supracitadas der Michael Anthony, apenas se referem a parte dos problemas, que já vinham desde o álbum anterior…
O Fim do Equilíbrio
“Balance” marcou o fim de uma era para as lendas norte-americanas. Afinal, acabou por tornar-se o último disco com Sammy Hagar e ainda o último a apresentar o baixista Michael Anthony na sua totalidade. Essa turbulência ficou, propositadamente, impressa na capa. Glen Wexler recordou à Resource que, originalmente, o álbum iria chamar-se “The Seventh Seal” e que ele tinha algumas ideias envolvendo um andrógino rapaz de quatro anos (não era o filho de Eddie Van Halen, Wolfgang, como chegaram a dizer alguns rumores). No entanto, o título foi alterado para “Balance”, de modo a representar a própria luta da banda por uma harmonia interna que se revelava cada vez mais difícil.
Alex Van Halen disse a Wexler que o novo título referia a turbulência da banda na altura, incluindo a morte do manager Ed Leffler, que tinha sido sempre uma presença estabilizadora para os Van Halen. A gravação do LP tinha sido uma experiência frustrante, uma vez que os músicos tiveram que se esforçar imenso para se encaixar de forma criativa. Eddie e Hagar, por exemplo, discordavam em múltiplos tópicos: o guitarrista recentemente sóbrio, procurando uma direcção mais profunda, queixou-se da letra do frontman para “Amsterdam” – focado em deboche – e ficou frustrado por Hagar não conseguir inventar uma letra ou uma melodia para o instrumental “Baluchitherium”.
Aliás, diz-se que Eddie ficou de tal forma exasperado durante as sessões de gravação (que tiveram lugar, na sua grande maioria, nos 5150 Studios) que cortou o cabelo, após anos a ostentar uma longa juba. Seja como for, os Van Halen resolveram as suas diferenças o suficiente para terminar o álbum, ainda que por pouco tempo, afinal Hagar sairia em ’96.
Cherone
A chegada de Gary Cherone trouxe uma nova perspectiva à dinâmica dos Van Halen. Em entrevista à Rolling Stone, Cherone reflecte sobre o processo criativo de “Van Halen III” e sobre o seu papel como o novo vocalista das lendas californianas: «Entrar para os Van Halen foi tão emocionante quanto intimidante. Tinha grandes sapatos para calçar, seguindo os passos de Sammy Hagar e David Lee Roth. Mas abordei a oportunidade com uma mente aberta e o desejo de contribuir com algo único para o legado da banda».
As contribuições de Gary Cherone acrescentaram uma nova dimensão ao som e conteúdo lírico da banda, enfatizando a importância da autenticidade emocional e colaboração criativa: «Quis colocar algo novo e inesperado na equação. Trabalhar com o Eddie e a restante banda foi uma experiência incrível, e acho que nos empurrámos mutuamente para novos patamares criativos. ‘Van Halen III’ pode não ter sido um sucesso comercial, mas foi um trabalho de amor para todos nós».
Lendo a entrevista, as observações de Cherone oferecem uma visão dos desafios que enfrentou para se destacar como o novo frontman dos Van Halen, mas também da liberdade criativa de que desfrutou para ajudar a moldar o som e a direcção de “Van Halen III”.
Olhar o Abismo
Isso não deixa de ser um sinal de que a banda procurava reiventar-se, mais do que firmar um novo vocalista. E esse processo estaria sempre refém de um homem. A jornada pessoal de Eddie Van Halen durante a criação de “Van Halen III” foi marcada por uma transformação profunda e introspecção. Em entrevista à Guitar World, na altura, Eddie Van Halen revelou o impacto da sua luta contra o vício e inseguranças no processo criativo do álbum.
Ele fala francamente sobre a sua demanda rumo à sobriedade e auto-conhecimento, enfatizando o papel da terapia e do crescimento espiritual na superação desses obstáculos: «Estava num lugar sombrio naquela época, a enfrentar os meus demónios e tentar encontrar o meu caminho de volta à luz. A terapia ajudou-me a confrontar os meus problemas e a redescobrir minha paixão pela música. O ‘Van Halen III’ foi uma experiência catártica para mim, uma oportunidade de me expressar de maneiras que não havia feito antes».
A jornada introspectiva de Eddie está bem reflectida na profundidade temática e experimentação musical do álbum. Músicas como “Fire in the Hole” e “From Afar” revelam uma exploração crua e desinibida de expressão musical, mostrando a disposição de Eddie e dos Van Halen em desafiar limites e quebrar expectativas. Nessa mesma entrevista à Guitar World, Eddie elabora acerca da sua abordagem à composição de músicas para o álbum, enfatizando a importância da autenticidade e ressonância emocional em suas composições: «Queria que a música reflectisse o lugar onde estava emocional e espiritualmente. Era sobre ser verdadeiro comigo mesmo e expressar meus pensamentos e sentimentos mais íntimos através da música. ‘Van Halen III’ foi um álbum profundamente pessoal para mim».
Em retrospectiva, esta honestidade desarmante acrescenta uma camada de profundidade emocional aos temas do álbum, oferecendo aos fãs um vislumbre do funcionamento interno do seu processo criativo. Foi um período turbulento para a banda, que enfrentava as dores de um novo cisma com um vocalista, com cada um dos músicos a lidar com questões pessoais e diferenças criativas, e tudo isso, em última análise, definitivamente teve um impacto no processo de composição e gravação, em que os Van Halen (ainda na sequência conceptual de “Balance”) procuraram algo mais profundo, algo mais significativo do que apenas sucesso comercial.
Nesse sentido, “Van Halen III” pode ser visto como um ponto de inflexão na carreira da banda, marcando uma transição para um som mais introspectivo e experimental. Embora não tenha alcançado o mesmo sucesso comercial de seus antecessores (esteve muito londe disso), o álbum permanece como um retrato do período de maiores trevas da banda. Pode-se notar uma mudança significativa no tom e na abordagem musical, especialmente comparado a “Balance”, que foi mais orientado para o rock mainstream, com singles de sucesso como “Can’t Stop Lovin’ You” e “Don’t Tell Me (What Love Can Do)”.
O Fim Adiado
Ao longo dos anos, o álbum ganhou um certo estatuto de culto entre os fãs mais acérrimos da banda, com o seu carácter mais introspectivo a ressoar junto de muitos ouvintes, criando empatia com as lutas e triunfos pessoais dos membros da banda. Fica também a sensação de que a entrada de Gary Cherone nunca foi devidamente explorada e que as coisas podiam ter evoluído, mas os Van Halen só se afundaram nos seus problemas na sequência do álbum, que foi seguido por um hiato prolongado na carreira da banda, alimentando especulações de que este teria sido o último álbum do Van Halen.
No entanto, em 2012, a banda surpreendeu os fãs com o lançamento de “A Different Kind of Truth”, o seu primeiro álbum de estúdio em mais de uma década. Esse retorno triunfante reafirmou a resiliência e a capacidade dos Van Halen se reinventarem ao longo do tempo. Dessa forma, em última análise, “Van Halen III” foi redimensionado e permanece como uma peça única no quebra-cabeças da história da banda, representando um período de transição e crescimento tanto pessoal quanto artístico.
