Centauri

Centauri, André Fernandes Explica “Hades”

“Hades”, o ominoso terceiro álbum de Centauri, analisado tema a tema pelo guitarrista e compositor André Fernandes.

No espectacular filme de John Boorman, “Excalibur”, Merlin descreve o Dragão a Artur. Uma besta imensa, de tremendo poder, que se fosse vista na sua totalidade, mesmo que num único vislumbre, nos reduziria a cinzas. «Está em todo o lado! É todas as coisas! As suas escamas reluzem nas cascas árvores, o seu rugido escuta-se no vento! E a sua língua bifurcada é como um relâmpago», assim diz o mitológico mago.

Em “Draco”, editado em 2018, o quinteto de músicos que forma os Centauri, com a liderança de André Fernandes, debruça-se sobre esse transcendente de onde brota a arte. Dois anos depois, chegou “Dianho”, trabalho cujas canções são inspiradas e intituladas por algumas histórias e criaturas presentes no livro “Bestiário Tradicional Português”, da Escafandro. Sobre esses dois discos podem descobrir mais no artigo que a ROMA INVERSA lhes dedica.

Depois do mergulho no orfismo do folclore português, no passado mês de Junho, os Centauri editaram “Hades” que, como o nome indica, segue também o submundo, mas desta vez na mitologia helénica. Musicalmente, onde os dois álbuns anteriores se mostravam mais vigorosos nas suas veredas instrumentais, “Hades” é mais ominoso e talvez seja mais espartano nas suas composições. Apesar da exploração sónica mais vincada, através de efeitos e de sintetização, há uma delineação mais austera.

André Fernandes, comenta os temas de “Hades” um a um, deixando pistas sobre as sinestesias que os Centauri criam entre as entidades que emprestam o nome às composições e seguindo a ordem da setlist do álbum, que podem comprar no Bandcamp do projecto e disparar no player no fundo do artigo…

1. Olympus. Quis criar um ambiente ao mesmo tempo intenso e suave, um tapete sonoro que fosse meditativo e albergasse mistério. Para ouvir de olhos fechados. O lugar dos deuses. Onde há paz, mas também conjectura e propósito.

2. Medusa. Uma criatura terrível, mas triste. Uma maldade oriunda de outra que lhe foi imposta. É também meditativo e esperançoso. A base de teclados é improvisada e o solo de guitarra também, tocado sem saber que acordes tinha improvisado antes.

3. Chronos. Cronos comeu um filho para garantir a sua sobrevivência baseado numa profecia. Não é agradável, e foi isso que tentei criar.

4. Andromeda. A única música neste disco de Centauri que foi escrita de princípio ao fim de forma mais “convencional”. É sonhadora, calma, mas com direcção. Foi gravado live num take.

5. Prometheus. Solo do João Mortágua que manipulei em pós-produção. Tal como Prometeu, a tentativa de subir está sempre a ser interrompida por uma queda, para sempre.

6. Hades. Rei do submundo, raptor de Perséfone, Irmão divino remetido aos confins do mundo. Tem influência do punk dos anos 70 e 80 como a banda Fear.

7. Persephone. Filha de Zeus que foi mantida prisioneira por Hades no submundo, repleta de amor e tristeza. A voz de Sara Afonso levou esta música para onde devia ir. Gravei duas guitarras acústicas propositadamente imperfeitas para criar a sensação de fragilidade desta história. A secção do meio abre uma porta de esperança que nunca é realizada.

8. Minotaur. Tal como a criatura, a música oferece escuridão e incerteza. A base/drone de teclados mantém a certeza de que algo não está bem, e o resto do som está perdido no labirinto.

9. Pan. Pã é perigoso, mas divertido, brincalhão e boémio. O piano foi improvisado pelo João Pereira e representa um mundo não preparado para orgia noturna a que vai parar numa conversa com Pã sobre si próprio, com texto da Sara Afonso. A bateria aqui é tocada pelo Diogo Alexandre, e a eletrónica por mim.

10. Titans. Solo do Zé Pedro Coelho manipulado por mim, sobre uma base de percussão bélica no espírito dos gigantes.

A fotografia dos Centauri que abre o artigo é do João Hasselberg.

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