Extreme

Extreme, III Sides To Every Story – Making Of

Após o estrondoso sucesso de “Pornograffitti”, os Extreme estavam determinados a expandir os seus horizontes musicais ao máximo. Lançado em 1992, “III Sides To Every Story” surgiu num período dominado pela simplicidade e crueza do grunge, uma estética que «despiria o mundo inteiro». Este disco épico e multifacetado demonstrou uma banda a ir tão longe quanto podia, tanto em escala como em complexidade, recusando-se a seguir as tendências prevalecentes da época.

A capacidade dos Extreme de prosseguir um projecto tão ambicioso e experimental, num momento em que a indústria musical se inclinava para o som mais cru do grunge, foi em grande parte facilitada pela alavancagem significativa que o sucesso comercial de “Pornograffitti” lhes proporcionou junto da sua editora. Esta liberdade permitiu-lhes optar por um caminho de grandiosidade e experimentação, uma escolha que, embora tenha tido um impacto na performance comercial do álbum, solidificou a sua integridade artística e o seu lugar no coração dos fãs.

A ideia de um álbum conceptual, dividido em três partes distintas – “Yours” (uma crítica social), “Mine” (uma exploração espiritual) e “The Truth” (uma suíte orquestral sobre a guerra) – partiu do guitarrista Nuno Bettencourt. Bettencourt propôs esta estrutura para permitir à banda explorar diferentes facetas musicais e líricas, reconhecendo a ousadia da iniciativa considerando o contexto musical de 1992. O vocalista Gary Cherone recorda o espanto com a escala que o projecto adquiriu, questionando: «Cuidado com o que desejas. O que queres dizer com podemos ter uma orquestra de 75 elementos em Abbey Road?».

Esta decisão de incorporar uma orquestra completa, gravada nos lendários Abbey Road Studios em Londres, já indicava a grandiosidade que a banda procurava. A abordagem dos Extreme neste álbum pode ser compreendida através da sua admiração por uma banda em particular. Gary Cherone afirmou que a música dos Queen serviu de modelo para os Extreme, destacando a capacidade das lendas britânicas de justapor canções pesadas com faixas ecléticas ou de estilo vaudeville nos seus álbuns. Mas o álbum também foi profundamente influenciado pelo amor de Nuno Bettencourt por bandas como Genesis e Yes, que contribuíram para o seu lado progressivo e conceptual.

As referências aos Beatles são particularmente notáveis, com citações líricas em “Cupid’s Dead” (“A Day in the Life”), “God Isn’t Dead?” (“Eleanor Rigby”) e “Rest in Peace” (“Give Peace a Chance”). A própria gravação em Abbey Road é vista como um aceno adicional à lendária banda britânica. Estas influências levaram os Extreme a perseguir uma «visão maior» e a «expandir os seus horizontes musicais» com “III Sides”, incluindo a incorporação da orquestra e a estruturação conceptual do álbum, a disposição da banda em abraçar diversos géneros e arranjos grandiosos, tornando “III Sides” uma progressão natural, em vez de um desvio estilístico súbito, apesar dos riscos comerciais associados.

Gary Cherone considera “III Sides” o pináculo do catálogo dos Extreme, descrevendo-o como experimental e motivo de orgulho pela sua própria indulgência. Ele afirma que a banda cresceu com estes discos, indicando um período significativo de desenvolvimento artístico com os Extreme a operar numa «bolha de criação própria», recusando-se a ser influenciada por forças externas, mesmo quando a gravadora provavelmente esperava um novo “More Than Words”.

Esta determinaçãodos Extreme em seguir a sua visão artística, apesar das expectativas comerciais, sublinha uma tensão crucial entre o crescimento artístico e o compromisso comercial. Enquanto “III Sides” é aclamado pela banda e por muitos fãs como o seu máximo criativo, o seu desempenho comercial ficou aquém de “Pornograffitti”. Embora possa ter sido “mal compreendido” pelo mercado mais amplo na altura, especialmente com a ascensão do grunge, consolidou-se como uma obra-prima para os seus dedicados seguidores. Esta troca entre integridade artística e viabilidade comercial é um tema recorrente na história da música.

A Génese do Conceito | Yours | Mine | The Truth

Como referido, o disco é meticulosamente estruturado como um álbum conceptual em três lados – “Yours”, “Mine” e “The Truth” – uma brincadeira com a ideia de “diferentes lados de uma história” e os lados físicos de um álbum em vinil ou cassete. Cada um destes lados apresenta um estilo musical e imagens líricas distintas, contribuindo para a narrativa abrangente do disco.  

A primeira parte, “Yours”, é composta por canções de hard rock e funk-metal, um estilo que os Extreme já haviam explorado extensivamente em álbuns anteriores. Este lado foca-se em temas políticos e sociais, como a guerra (“Warheads,” “Rest in Peace”), a paz, o governo (“Politicalamity”), o racismo (“Color Me Blind”) e os media (“Cupid’s Dead”). Notavelmente, “Cupid’s Dead” inclui uma secção de rap interpretada por John Preziosa Jr., e “Peacemaker Die” encerra este lado com uma gravação do famoso discurso “I Have a Dream” de Martin Luther King Jr., sublinhando a mensagem social.

A segunda parte, “Mine”, contrasta drasticamente com a primeira, explorando temas introspectivos e espirituais. Nuno Bettencourt assume um papel mais proeminente nos teclados em várias malhas. “Seven Sundays”, o tema de abertura deste lado, é uma valsa lenta com teclados dominantes e sem guitarras. “Tragic Comic” é uma canção maioritariamente acústica, que narra uma história de amor. “Our Father” aborda a perspectiva de uma criança sobre um pai ausente, embora muitos a interpretem como uma reflexão sobre Deus como Pai. As canções “Stop the World” e “God Isn’t Dead?” aprofundam questões filosóficas e religiosas, culminando numa súplica dramática em “Don’t Leave Me Alone”.

Finalmente, “The Truth” é uma suíte orquestral de três partes, intitulada “Everything Under The Sun”, que representa o auge da ambição do álbum. Nuno Bettencourt foi o responsável por arranjar todas as partes de cordas. Liricamente, este lado continua o tema espiritual estabelecido em “Mine”, com uma forte imagética cristã. Contudo, não oferece uma verdade final ou absoluta, digamos assim, deixando o ouvinte com a questão “Who Cares?”. A introdução e a outro em caixa de música são pequenos toques que realçam a sofisticação conceptual da suíte e dos Extreme.

O Coração da Criação: Estúdios, Produção e Engenharia

A maior parte de “III Sides To Every Story” foi meticulosamente gravada pelos Extreme nos New River Studios em Fort Lauderdale, na Flórida. As partes orquestrais, no entanto, foram gravadas nos lendários Abbey Road Studios em Londres, uma escolha que não só elevou o estatuto do álbum, mas também exigiu uma abordagem de gravação que pudesse integrar os elementos clássicos com o som rock da banda de forma coesa. A produção do álbum esteve a cargo de Nuno Bettencourt e Bob St. John.

Bob St. John, reconhecido como um produtor e engenheiro premiado (Duran Duran e Elton John, etc.), desempenhou um papel fundamental na moldagem da sonoridade final do disco – e também dos Extreme, que tantas vezes gravou. Além da guitarra, Nuno Bettencourt também foi responsável pela orquestração e contribuiu com teclados, piano, órgão e percussão, demonstrando a sua vasta influência musical e técnica no projecto. Na engenharia de som e mistura, John Kurlander e Carl Nappa são creditados, com Bob St. John a desempenhar também um papel activo nesta função.

As notas de estúdio de Bob St. John revelam detalhes técnicos significativos, como o uso de Neumann 87s modificados por Klaus Heine para as guitarras. A dupla função de Nuno Bettencourt como produtor e principal compositor/guitarrista, em conjunto com Bob St. John, sugere um controlo criativo altamente colaborativo, mas potencialmente dominante, por parte dos membros da banda. O perfeccionismo do Nuno é evidente e a sua preferência por trabalhar sozinho nos solos demonstra uma forte visão pessoal para o som do álbum. As notas detalhadas de Bob St. John oferecem uma rara visão da execução técnica desta visão, destacando a natureza meticulosa do processo de gravação, apesar do desejo inicial da banda por uma vibe “ao vivo”.

A masterização do álbum foi confiada a Bob Ludwig, em Masterdisk, Nova Iorque. Ludwig é considerado um dos “gigantes” da masterização, com um currículo que inclui centenas de discos de platina e ouro. A sua filosofia de trabalho envolve ouvir a fita crua, conceber na sua mente o som final ideal e, em seguida, saber exactamente quais ajustes aplicar para alcançar essa visão. Ele salienta a importância de uma mistura precisa e expressa a convicção de que a sobre-compressão digital pode comprometer a longevidade da música.

Algumas opiniões argumentam que o álbum teria beneficiado muito das técnicas de gravação da era dos anos 70, caracterizadas por um calor analógico, menos camadas digitais e um som mais cru e orgânico. Em particular, a bateria de Paul Geary foi apontada como a mais afectada por esta abordagem, perdendo parte do seu impacto e naturalidade. Bob St. John confirmou que a bateria era «bone dry» e «em stereo apenas por um triz»; o produtor menciona ainda «misturas de bateria com sons estranhos» em malhas como “Cupid’s Dead” – que combinava a bateria de Paul Geary, Nuno Bettencourt a tocar bateria e drum machine – e “Politicalamity”, que sofreu com compressão excessiva.

Gary Cherone, em retrospetiva, defende a produção de “III Sides”, considerando-a mais intemporal do que a de “Pornograffitti”, que a produção de “III Sides” e álbuns posteriores «aguenta-se hoje em dia», enquanto a de “Pornograffitti” soa datada pelos «grandes sons de bateria e o reverb, e o triplicar dos vocais». Bob St. John também defende a sonoridade, descrevendo-a como «guitarra e voz secas e as baterias com o som de sala» e «anti-80’s», considerando-a inovadora. Os Extreme tocaram em live take, sem auscultadores, nos Criteria Studios (antes de se mudarem para New River), embora o perfeccionismo de Nuno tenha levado a muitas regravações e edições manuais.

O Arsenal de Nuno Bettencourt

Nuno Bettencourt é amplamente reconhecido pela sua guitarra Washburn N4. Embora a N4 tenha sido desenvolvida em colaboração com Washburn e o luthier Stephen Davies e introduzida em meados/final dos anos 90 como a sua guitarra principal , é importante notar que Bettencourt utilizou diferente gear em cada álbum.

As N4s caracterizam-se geralmente por um corpo de Alder (uma madeira leve que oferece um tom equilibrado), um braço de Birdseye Maple e uma escala de ébano. Os pickups padrão na N4 são um Seymour Duncan ’59 no braço e um Bill Lawrence L-500 na ponte. Estes humbuckers são conhecidos por oferecerem sons mais quentes e maior saída, ao mesmo tempo que cancelam o ruído inerente aos single-coils. As notas de estúdio de “III Sides” indicam que o guitarrista dos Extreme utilizou um amplificador Soldano SLO 60 (Soldano Series II Super Lead 60).

O sinal da guitarra foi micado através de um pré-amplificador Neve 1073. Bob St. John também menciona o uso de um par de Neumann 87s modificados por Klaus Heine apontados a uma Marshall angulada (slant), e que esta configuração permaneceu inalterada para os overdubs de guitarra durante a gravação. O Neve 1073 é um pré-amplificador limpo e transparente, e o Neumann 87 é um microfone condensador muito detalhado.

As notas de Bob St. John indicam que Nuno utilizou um Boss Turbo Overdrive e um RAT. A menção explícita de um Soldano SLO de 60 watts como o amplificador principal para as overdubs de guitarra em “III Sides” é fundamental. O Soldano SLO é conhecido pelo seu som de alto ganho, articulado e harmonicamente rico, frequentemente descrito como possuindo um ataque percussivo característico. Esta escolha de amplificador contribuiu directamente para o som de guitarra potente e, ao mesmo tempo, claro do álbum. Características perfeitamente alinhadas com o estilo de tocar virtuoso e preciso do Nuno e dos Extreme.

A Gravação da Orquestra em Abbey Road

A decisão de gravar as partes orquestrais de “III Sides To Every Story” nos Abbey Road Studios, em Londres, não foi meramente uma escolha logística, mas uma declaração de intenção artística dos Extreme. Abbey Road, um estúdio lendário com uma rica história ligada a inúmeras gravações icónicas, incluindo as dos Beatles, conferiu ao projecto um selo de prestígio e uma ambição que ultrapassava as convenções do rock da época. A escolha de Abbey Road é, de facto, percebida como mais um aceno aos Beatles, além das supacitadas várias referências líricas presentes no álbum.

A integração de uma orquestra de 75 elementos com o som de uma banda de rock como os Extreme apresentou desafios técnicos e artísticos consideráveis. Embora os detalhes específicos das técnicas de micagem ou dos compressores utilizados para a sessão dos Extreme não sejam amplamente documentados, a reputação de Abbey Road aponta para um compromisso com a qualidade sonora de alto nível. Os estúdios eram conhecidos por utilizar equipamento de ponta para a época, incluindo consolas de mistura como as séries REDD e TG, e compressores icónicos como o Fairchild 660 e o EMI RS124.

Mike Moran foi um músico convidado creditado pelas orquestrações em “Everything Under the Sun: III. Who Cares?”. A orquestração e a gravação em Abbey Road foram elementos cruciais que permitiram aos Extreme atingir o auge da sua ambição musical, especialmente na suíte “The Truth”, na sua complexidade e a escala emocional.

No Fim da História

Apesar da grandiosidade e do esforço de produção, “III Sides” enfrentou desafios significativos no seu lançamento em 1992. Embora não tenha sido um fracasso total, os Extreme viram-se rapidamente a escorregar do pico de popularidade que “Pornograffitti” lhes havia proporcionado, vendendo apenas cerca de 700.000 cópias face à dupla platina de “Pornograffitti”. O álbum carecia de um single radiofónico de sucesso comparável a “More Than Words”, o que limitou a sua penetração no mercado de massas. Além disso, o seu lançamento coincidiu com a ascensão avassaladora do movimento grunge, que favorecia uma estética musical e de imagem mais despojada e crua, em forte contraste com a complexidade e o virtuosismo que Extreme apresentavam.

A avaliação crítica do álbum foi variada. O The New York Times destacou a mudança de direcção dos Extreme, observando: «Tendo construído a sua reputação em baladas acústicas, os líderes dos Extreme, Gary Cherone e Nuno Bettencourt, reafirmam aqui a sua lealdade ao rock progressivo. O virtuosismo da guitarra e as rápidas mudanças estilísticas dominam ‘III Sides’. Feedback mistura-se com harmonias a quatro vozes; hard funk desliza para cordas exuberantes. A produção pop-metal padrão combina estes ingredientes díspares num ‘pudim’ facilmente digerível».  

A AllMusic, por sua vez, considera o álbum «selvaticamente irregular», mas reconhece que «no meio das indulgências, há algumas boas canções a serem encontradas: ‘Rest in Peace’ exibe tanto a técnica quanto o lirismo de Bettencourt como solista, enquanto ‘Seven Sundays’ continua na sua veia ocasional de balada lounge, e ‘Tragic Comic’ e ‘Stop the World’ são mais duas joias pop inteligentes e romanticamente feridas». Todavia, como a Entertainment Weekly causticamente referiu, por mais rico que seja o disco, ficou aquém dos ambiciosos objetivos dos Extreme.

“III Sides” não foi isento de decisões controversas, sendo a mais notória a omissão da faixa “Don’t Leave Me Alone” na versão em CD. Esta canção, descrita por alguns como uma das melhores do álbum (e dos Extreme) e inspirada nos Queen, foi cortada devido a limitações de espaço na altura. Nuno Bettencourt expressou o seu profundo pesar pela decisão, afirmando que deixá-la de fora foi como cortar-lhe um braço.

A sua ausência é ainda mais confusa na versão de streaming, onde não existem restrições de espaço. Muitos consideram esta decisão uma falha significativa, pois a canção deveria ser a última da Parte 2 (“Mine”), funcionando como um soco no estômago emocional que faz a transição perfeita para a suíte “The Truth”. A sua inclusão na cassete original e em algumas edições de vinil apenas realça a sua importância percebida pelos fãs e pela própria banda.  

No entanto, “III Sides To Every Story” é um álbum que recompensa múltiplas audições. Há muitos detalhes escondidos ao longo do disco, desde discursos de Martin Luther King Jr. a passagens em latim. O inesquecível aceno de Bettencourt a Hendrix, em “Rest In Peace”. Pat Badger, embora muitas vezes um “parceiro silencioso”, entrega-nos um grande solo em “Cupid’s Dead”. A ambição dos Extreme e a complexidade do álbum, juntamente com a sua mensagem subjacente – que devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados – conferem-lhe uma relevância duradoura.

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