Led Zeppelin

Led Zeppelin I, A Inauguração do Hard Rock em 1969

Formados em 1968, os Led Zeppelin precisaram apenas de um ano para editar dois álbuns que mudaram a história da música. Este é o primeiro. Imaginem ouvi-lo pela primeira vez, sem pontos de referência, em Janeiro de 1969…

O álbum de estreia dos Led Zeppelin, frequentemente referido como “Led Zeppelin I,” é uma pedra angular na história do rock and roll. Lançado em 12 de Janeiro de 1969, nos Estados Unidos, e em 31 de Março seguinte no Reino Unido, o álbum marcou o início de uma das carreiras mais influentes e duradouras nos anais da música rock. Composto por Robert Plant (voz), Jimmy Page (guitarra), John Paul Jones (baixo/teclado) e John Bonham (bateria), os Led Zeppelin irromperam na cena com uma força sonora que remodelaria o cenário da música popular. Estava a nascer o hard rock…

“Good Times Bad Times” serve como a introdução explosiva ao som da banda. Só podemos imaginar o impacto que terá tido em quem, sem nada que assemelhasse sonicamente até aí, tenha ouvido pela primeira vez tamanha conjuração eléctrica. O riff icónico da guitarra de Page, a bateria estrondosa de Bonham e os vocais poderosos de Plant, ainda hoje, prendem imediatamente a atenção do ouvinte. A energia e virtuosismo patentes na música estabelecem o tom para todo o álbum, revelando sem pudores a habilidade musical formidável dos Led Zeppelin e a química entre os seus membros.

O álbum transita para “Babe I’m Gonna Leave You”, uma malha dinâmica que destaca a capacidade da banda de fundir elementos de blues, folk e hard rock. As vocalizações emotivas de Plant, combinadas com o intrincado trabalho na guitarra de Page, criam uma atmosfera cativante que, logo ali, distinguiu os Led Zeppelin dos seus contemporâneos.

Uma das faixas marcantes do álbum é “Dazed and Confused,” uma epopeia expansiva que encapsula a natureza experimental e o sentido de improviso da banda. Com mais de seis minutos de duração, a música apresenta a técnica icónica de guitarra com arco de Page, conferindo-lhe uma qualidade distinta e sobrenatural. A interação hipnotizante entre os instrumentos mostra a disposição dos Led Zeppelin em ultrapassar os limites da música rock convencional. É importante repeti-lo porque, mesmo após meio século, há mentes iluminadas que falam na originalidade e não sei quê. Enfim, ouçam as linhas de baixo deste malhão e perguntem ao pessoal de Bristol como criou toda a sua estética na década de 90.

As malhas de carácter mais acústico, “Your Time Is Gonna Come” e “Black Mountain Side” demonstram ainda mais a versatilidade da banda, a sua disposição em explorar diferentes géneros, incorporando influências folk e orientais no seu repertório. As contribuições nos teclado de Jones e os estilos diversos na guitarra de Page contribuem para a rica tapeçaria de sons do álbum.

Diz Jimmy Page: «Os Led Zeppelin, os seus músicos, eram uma banda mergulhada nas raízes. Cada um de nós havia sido um investigador musical, como se tivéssemos uma licenciatura na Universidade de Vida Musical. Quando nos tornámos um colectivo, surgiram estes tipos de elementos em que ouves um pouco de um “gancho” rockabilly aqui, um pouco de jazz ali, blues de Chicago acolá ou um pouco de Elvis além… Há tantos carácteres diferentes que são espelhados individualmente e musicalmente. E chega ao ponto em que – é demasiado foleiro falar num caldeirão – se torna uma fusão. Fusão musical. É isso que acontece».

A peça central do álbum, “Communication Breakdown” é uma malha impulsionada por riffs de alta energia que exemplifica o poder bruto dos Led Zeppelin. A bateria estrondosa de Bonham, em conjunto com os riffs eletrizantes da guitarra de Page, cria uma energia implacável e contagiosa que se tornaria uma marca registada do som da banda. Ainda hoje, permanece destacada como o mais notável exemplo de uma banda a destilar a essência do rock and roll num poderoso arranque de três minutos.

Origens & Impacto

“Led Zeppelin I” também apresenta uma reinterpretação do clássico blues de Willie Dixon, “You Shook Me”. A versão das lendas britânicas exalta a sua profunda apreciação pelo blues, ao mesmo tempo em que injecta o seu próprio estilo característico. Para não subsistirem dúvidas, os solos magistrais de guitarra de Jimmy Page e os vocalizos meio soul de Robert Plant elevam a faixa a novas alturas, criando uma experiência de audição memorável e electrificante.

A encerrar o álbum, “How Many More Times” é uma obra-prima que encapsula os vários elementos da identidade musical dos Led Zeppelin. Com mais de oito minutos de duração, a música funde habilmente blues, rock e psicadelismo, mostrando a capacidade da banda em criar expansivas viagens sónicas. A estrutura de várias secções da música, incluindo o seu hipnótico núcleo, exemplifica a propensão dos Led Zeppelin para, uma vez mais, a experimentação e inovação. O impacto de “Led Zeppelin I” na indústria da música, em inúmeros quadrantes, foi imediato e profundo.

O sucesso comercial do álbum catapultou a banda à fama internacional, alcançando o top 10 das tabelas nos Estados Unidos e no Reino Unido. Mais importante ainda, lançou as bases para o hard rock e o heavy metal, que dominariam a década de 1970 e além. Além do sucesso comercial, a importância cultural do álbum não pode ser exagerada. Led Zeppelin I é um testemunho da habilidade da banda em sintetizar diversas influências musicais num som coeso e inovador.

Roger Mayer & Dragões

Quando os Led Zeppelin se formaram, no final 1968, a Dragon Telecaster era a guitarra principal de Jimmy Page e o músico usou-a exaustivamente em palco e em estúdio até 1969. Foi a guitarra principal nas sessões do álbum de estreia da banda, “Led Zeppelin I”. Então, no regresso após uma pequena digressão, Page descobriu que um solícito amigo havia desmontado o corpo da guitarra e pintado por cima do dragão. Esta pintura comprometeu o som e o circuito eléctrico, deixando apenas o pickup do braço funcional. Page resgatou o braço, colocando-o na sua Tele com o sistema B Bender, e tornou a remover a tinta e a procurar restaurar o corpo da guitarra que reformou.

Page usou principalmente um Supro Coronado no início da década de 60, quando andava em digressão com Neil Christian and the Crusaders. Durante uma das viagens, o amp caiu da carrinha de backline e ficou severamente danificado. Foi montado de volta, para se aguentar até poder ir a uma oficina ser restaurado. O amp, de design e construção norte-americanas foi reparado com os componentes disponíveis no Reino Unido na altura, incluindo as válvulas. Então o amp passou a ter válvulas Mullard no circuito de pré e uma rectifier Mullard GZ34 e uma GE 6L6 no circuito de potência. Foi já com esta configuração que o amp debitou clássicos como “Good Times, Bad Times”, “You Shook Me” ou Communication Breakdown”. Originalmente o amp possuía dois altifalantes de 10’’, o restauro trocou-os por uma unidade de 12’’ que aproveitou um altifalante norte-americano e o remodelou com um diafragma britânico.

Podem ler mais sobre a Telecaster e o Supro, essenciais no som de “Led Zeppelin I” no artigo que intitulamos como Os Dragões de Jimmy Page. No entanto, houve outro factor determinante. Numa extensa entrevista com a Uncut Magazine, Jimmy Page aborda vários assuntos como os primórdios da sua carreira, a sua relação com Robert Plant, o extraordinário legado dos Led Zeppelin e também o seu som de guitarra. Recordando vários anos atrás, Page fala na revolução que a engenharia eléctrica de Roger Mayer provocou, mudando o seu som de guitarra e o da música rock para sempre.

«Foi um momento axiomático para o meu som. Conheci um gajo chamado Roger Mayer num concerto em Surbiton. Ele trabalhava para o Almirantado [Britânico] e era um nerd, à séria, no que respeitava à música. Perguntou-me se necessitava de algo para a minha guitarra. Um dia veio a minha casa, toquei-lhe uma canção com distorção eléctrica e disse-lhe que queria descobrir uma forma de ter sustain naquilo. Ele foi embora e voltou noutra altura com esta caixa que tinha um interruptor on/off – o que significava que podia controlar a distorção».

Legado

A influência de “Led Zeppelin I” estende-se muito além do seu lançamento inicial. O impacto do álbum pode ser ouvido nas inúmeras bandas e artistas que surgiram posteriormente, muitos citando os Led Zeppelin como uma influência primordial. A combinação do trabalho virtuoso na guitarra de Page, a estridência vocal e carisma de Plant, a musicalidade versátil de Jones e a bateria poderosa de Bonham, criou uma alquimia que ressoou com o público e com qualquer músico desde aí, estabelecendo um novo padrão para a música rock.

Geddy Lee, por exemplo, admite que replicar aquele som passou a ser a missão dos Rush«Lembro-me quando o primeiro álbum saiu e esperámos na nossa loja local Sam The Record Man, em Willowdale, pegámos no disco, corremos para minha casa, pusemo-lo a tocar e sentámo-nos na minha cama, a passar-nos com ‘Communication Breakdown’. Eles foram uma enorme, enorme influência sobre nós. Queríamos, instantaneamente, ser eles. Mas as suas malhas eram difíceis de tocar. Experimentámos várias canções de Zeppelin quando tocámos em bares, mas sentimos que não as conseguíamos tocar. Mas tivemos a ‘Living Lovin’ Maid’ no nosso alinhamento durante algum tempo».

O homónimo álbum de estreia dos Led Zeppelin permanece, ao fim de meio século (e apostamos em, pelo menos, mais meio século ainda), uma obra seminal no cânone do rock ‘and’n’ roll. Desde as notas explosivas de abertura de “Good Times Bad Times” até à jornada épica de “How Many More Times,” o álbum mostra a musicalidade inigualável, a inovação e a postura que quebrou paradigmas dos Led Zeppelin. “Led Zeppelin I”, repetimos, não apenas lançou a banda para o reconhecimento internacional, mas também deixou uma marca indelével na história da música, abrindo amplas veredas moldaram o cenário musical durante largos anos.

Tudo isto é mais impressionante se pensarmos que, ainda em 1969, chegou Led Zeppelin II