Ao longo da última década, João Duarte tornou-se num dos melhores guitarristas do nosso underground e um dos mais importantes músicos no black metal português. Dos Alchemist, Göatfukk ou Systemik Viølence, à firmação nos Filii Nigrantium Infernalium e nos Corpus Christii e à ascensão internacional em Vltimas, ao lado de uma das maiores lendas do death metal. Eis uma selecção da sua discografia.
De ascendência algarvia, João Duarte nasceu em Lisboa. Formou-se com mérito em engenharia electrotécnica e computadores na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Aliás, não foi há muito tempo que concluiu os estudos. Não recordo o ano exacto, mas quando o conheci pessoalmente, no SWR (onde mais?) o João Duarte já andava na órbita dos Corpus Christii. «O puto é um músico do caraças!», diziam-me. Chamo-lhe puto não do alto da década que lhe levo a mais, mas porque ainda hoje, com tudo aquilo que alcançou, a sua humildade permanece desarmante. Desde a primeira vez que falámos que o João Duarte é assim…
Recordo as primeiras palavras que trocámos, no final da sua actuação, creio que com Göatfukk, no palco LOUD! Dungeon do Barroselas Metalfest. Armado aos cucos, disse-lhe que ele precisava de uma guitarra bem melhor que a Jackson escavacada que usara e o João Duarte respondeu algo como um «tenho que pensar nisso, mas a guitarra também é só para fazer uns riffs». Ri-me para mim próprio. Aqui estava um puto que, sem qualquer manifestação de desrespeito ou pretensiosismo, se estava a cagar para tudo o que é periférico a tocar.
Aliás, ainda hoje, nunca percebi quais as guitarras de eleição ou quais os pedais e rig preferidos do João Duarte. Quanto à sua música, essa trago-a gravada a ferro e a fogo na mente. E nem vale a pena falar muito sobre Vltimas, o projecto de black/death metal que, para se expressar fora dos lendários Morbid Angel, David Vincent criou com Rune Eriksen e Flo Mounier e onde o “Deris” integra o line-up de digressão.
Essa é apenas uma de entre muitas bandas em que Duarte é músico de sessão, como por exemplo, os londrinos Lvcifyre ou os nacionais Irae e Morte Incandescente, que editaram o triunfal álbum “Vala Comum” em 2021. Antes disso, este puto tornou-se (e permanece) um dos pilares da cena black metal portuguesa.
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Como referido, em 2012 os Alchemist estrearam “Flesh To Be Broken”. Registo único na discografia da banda, com o seu conceito lírico mergulhado em simbologia hermética, o EP é um vigoroso testemunho do cânone do black metal e da sua crescente desenvoltura e miscigenação musical dentro das nossas fronteiras. O trio de músicos é portentoso, com Jimmy nas baterias e João Galrito nas vozes e no baixo
O groove da banda e o seu poder rítmico possui um sentido mais rock ‘n’ roll que tem vindo a vigorar cada vez mais no black metal português. Nesse aspecto, a destreza e dinamismo patenteados pelas guitarras de João Galrito (outra “carola” na nossa cena BM que compôs estas malhas) são pivotais. O João Duarte assegurava esses pressupostos ao vivo.
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O Ricardo “Wanderer” passara a década anterior como frontman dos Decayed, naquela que considero a melhor fase da histórica banda nacional. A sua saída deveu-se às mudanças que se preparava para enfrentar a título pessoal, antes de as enfrentar, todavia, reuniu-se com o Jimmy na bateria, convocou VSC (que depois disto andou desaparecido até surgir portentosamente em “Explosions” dos Phenocryst) e o João Duarte (que aqui gravou o pseudónimo J. Goat) para os Göatfukk.
Gravaram “Procession Of Forked Tongues”, um explosivo EP em que black metal, d-beat, thrash e punk são misturados com destreza, velocidade e escárnio sacrílego. A malha “Nocturnal Guidance” e os seus solos, eram um sinal de que o João Duarte estava solidamente a transmutar-se num shredder.
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Os Systemik Viølence surgiram de rajada, em 2016, com este “Fuck As Punk”. O EP, em vinil 7”, teve edição pelo obscuro selo alemão Crucificados Pelo Sistema (exacto, fãs de Ratos de Porão). Imaginem esta fundamentação misturada com a crudeza sónica e negrume dos Darkthrone. Pode não haver muito a dizer desta vil mistura de black metal, d-beat, guitarradas ferozes e uma porqueira punk sem quaisquer escrúpulos, mas também não há muito para não gostar. Em 2023, com lineup reformulado (ainda com o João Duarte), mas a coberto da mesma imundície e violência sónica do percurso discográfico já assinado, os Systemik Viølence editaram o segundo LP, “Negative Mangel Attitude”.
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Na banda desde sensivelmente 2008, J. Goat gravou o seu primeiro disco com os Corpus Christii em 2015. Mas, pelo menos assim está creditado, em “Palemoon” o seu papel foi o de baixista. Só dois anos mais tarde João Duarte assumiu as guitarras na banda e por isso escolhemos esse trabalho para esta lista. O oitavo álbum de Corpus Christii continuava a revelar devoção aos Mayhem. Mas isso significa somente duas coisas: a relevância da banda norueguesa dentro do cânone, ocupando o triplo trono negro junto de Celtic Frost e Bathory, e o facto de Corpus Christii se manter como uma das grandes forças da ortodoxia estética do black metal, sem qualquer cedência a hypes.
Para lá das referências, “Delusion” [2017] apresenta um imenso equilíbrio na produção sonora entre a rudeza e respeito pela tradição do género com execução técnica e riffs de guitarra que obrigam a fixação na memória (com o boogie de “Become The Wolf” à cabeça), com eloquência nas vocalizações, uma aura sinistra e momentos de tremendo poder instrumental. E nos momentos de groove ou naqueles de pura agressividade, a soberba prestação de bateria é outra das pérolas do álbum, traduzindo compassos de blast beats ou de enorme densidade rítmica com a mesma eficácia.
Extremamente homogéneo, sendo difícil exaltar temas em detrimento de outros, e em crescendo de intensidade, tornando-se mais negro e mais agressivo com o decorrer da tracklist, “Delusion” é revelador de uma banda no auge das suas capacidades e é o seu melhor disco até à chegada, já este ano, de “The Bitter End of Old”.
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Em 2018, os Filii Nigrantium Infernalium editaram dois álbuns, “Fellatrix” e “Hóstia”. O primeiro teve as guitarras gravadas por Pedro “Iron Fist” Pita, dos Midnight Priest. O segundo, que para muita gente má res apenas fica atrás de “Fellatrix Discordia Pantokrator” nos melhores da mais blasfema das bandas do underground nacional teve as guitarras integralmente assumidas pelo frontman da banda. Assumindo a persona Cardeal Aborto XIII, João Duarte tornou-se ainda nesse ano o guitarrista principal da banda.
Em 2022, “Deris” referiu-nos que o próximo álbum da banda – o primeiro que gravou – tinha as suas sessões de estúdio finalizadas. Dois anos mais tarde, eis a primeira malha de “Pérfida Contracção do Aço”, um vendaval de shred absolutamente maníaco e sacrílego. O 5.º LP dos Filii Nigrantium Infernalium chega em Novembro de 2024.
A foto que abre o artigo é do Pedro Roque (outro puto às direitas).

Um pensamento sobre “João Duarte, As Muitas Almas do Grande Bode”