melhores álbuns nacionais 2023

Best of 2023: Álbuns Nacionais

Eis os álbuns nacionais que mais gostámos de ouvir em 2023. Como sempre, procurámos ser eclécticos. Da pop ao metal, talvez o jazz (e derivados) tenha alguma predominância nesta excepcional lista.

Este parágrafo é um copy/paste que vai tornando-se tradicional. Felizmente, já é chavão dizer que «este foi um grande ano para a música portuguesa». Mas foi mesmo! Entre as várias expressões musicais, sucedem-se excelentes álbuns na música nacional. Talvez pelo tempo que as bandas tiveram para ponderar e preparar bem as suas composições durante o isolamento pandémico e depois, já em estúdio, tenham manifestado uma enorme sede de tocar. Alguma coisa terá sido. Nesta lista que apresentamos, não há uma ordem específica de classificação.

A título pessoal, ainda que esta coisa de discos preferidos seja sempre, essencialmente, pessoal, o favorito é o álbum de estreia do trio liderado por Eugénia Contente. Um disco que entrou no radar ROMA INVERSA através do trabalho da guitarrista com Nico Guedes, “Blue Bird” é o extraordinário disco de estreia de Nico Drums & Blues e a meio de um álbum onde a bateria é o instrumento protagonista, Eugénia Contente assinou o melhor disco de guitarra do ano.

Não estão na lista (limitada a 10 discos), mas merecem menções muito honrosas trabalhos que analisámos ao detalhe nas nossas páginas. Caso de “Risen From The Tomb”, onde os Death Feast convocaram hostes a bandas tão emblemáticas no underground nacional como os Decayed, Alastor, Nethermancy, Hoth, Paranormal Waltz, Sacred Sin ou Corpus Christii. O resultado é um disco de horror e demência numa indistinta mistura sónica dos primórdios estéticos do black, death e thrash metal.

“Senda” é o lindíssimo trabalho de estreia de Sérgio Miendes a solo. Disco instrumental que, com a guitarra como grande protagonista, apresenta uma soberba escala cinematográfica. Dono de uma aura xamânica, ainda que de construção industrial, “Dor” é o excelente trabalho de estreia dos Ruído Roído, projecto criado por Jorge Oliveira e Márcio Décio, ubíquos músicos do underground do eixo Porto/Braga. E, claro, lançado já em Dezembro de 2023, talvez não tenhamos maturado a nossa audição ao imponente álbum de regresso dos Men Eater.

De resto, podem concordar ou discordar com estas escolhas, mas não as ignorem. Só discaços!

O álbum de estreia de Eugénia Contente Trio, assim que é disparado “Synth Muito” (tema de abertura), torna evidente duas coisas: que o seu “groovezorro” funk é a cama onde uma orgia de estilos e estéticas tem lugar e que, felizmente, fomos convidados a assistir. Quando falamos em funk, queremos referir Nile Rodgers em esteróides. Já que estamos a atirar referência como barro à parede, deste lado, pressente-se algo de Jeff Beck ou de Mike Stern ali naquelas alturas do “Time In Place”.

Mas, acima de tudo, como se pode testemunhar de modo mais claro em “Rubber Duck”, o que mais impressiona é a solidez de Eugénia na sua mão esquerda e a flexibilidade na sua mão direita. E aí talvez se pressinta aquele estilo funk contemporâneo que Prince celebrizou e Cory Wong reavivou para o grande público. Mas Eugénia extravasa muito a potência rítmica na sua linguagem musical. Os fraseados são ágeis e dinâmicos, seja na suavidade de “Interlindo” ou na explosividade wah de “Maneki Neko”. Domínio impressionante de acordes e shredder de impressionante velocidade.

Depois, a ligação entre os três músicos apresenta uma graciosa fluidez, nos momentos mais quadrados ou nos mais sincopados. Contente, Salles e Delgado conseguem soar tão batidos como veteranos de Minneapolis em “Synth Muito” ou “Windmill Hat”, mostrar temperamento latino em momentos como “Brain” ou surpreender com a evocação dos Dead Combo em “Django Avishained” ou, imagine-se, dos Black Sabbath e dos seus ominosos trítonos em “Era Para Ser Uma Balada”. A review completa a “Duckontente” abre na hiperligação.

★★★★★

O que começou como um doodle (“esboço”) em torno do groove de Bo Diddley, tornou-se numa música muito mais desenvolvida, diz Nico Guedes, que queria pegar nesse ritmo irónico dos blues, que fez o crossover da música dos anos 50 para a pop dos anos 80, e trazê-lo de volta, por ter reparado que é raro ver este groove nos concertos de hoje em dia. As letras escreveram-se como se estivesse a esboçar um rabisco, enquanto Nico pensava em comportamentos irracionais (como guerra, idolatria, relações humanas sem amor) que perduram até hoje, numa sociedade emocionalmente subdesenvolvida.

Logo de seguida, ao lado de Michael Lauren, “Let’s Talk” é uma «canção que fala da aproximação de duas pessoas através da conversa como forma de entendimento, a escolha de um shuffle para mostrar este projecto não foi por acaso. Este é um perfeito exemplo importância do ritmo nas definição do género, e recorrendo a uma harmonia fresca, António Mão de Ferro [guitarra] e Carl Minnemann [baixo] revelam a estrutura de blues contemporâneo».

Arrumados os dois singles – e arrumados no melhor sentido – fica ainda muito por absorver. “Hummingbird” introduz-nos Mário Costa nas baterias do lado direito. As sensações de que, a meio de tantas influências, é preciso considerar o surf rock são consumadas neste portentoso exercício mais dado à jam. E, depois de um explosivo solo dos dois bateristas, Eugénia Contente remata a malha com um solo daqueles que faria um americano dizer: «Take us home, Eugénia». “Snarebird” é o epílogo desse vibrante momento. O baixista Vasco, Alessandro Moura, Mário Costa e Eugénia “Twang” Contente permanecem em cena com Guedes em “Tuna Fish”, o tema escrito pela guitarrista. É mais uma fusão de blues com aquele rock ‘n’ roll das origens e, sendo o tema do álbum com mais camadas instrumentais, é vibrante na sua riqueza harmónica, mesmo quando soam apenas as duas baterias.

O peso rítmico e nas guitarras de “Smoking Hot” tornam esta malha na nossa favorita. Lá fundo, gostamos de coisas simples. Ainda mais se tiverem solos de guitarra daqueles que promovem o imediato face meltdown. A sério, Nico Guedes é o protagonista aqui, as baterias são o foco, mas Eugénia Contente não deixa pedra sobre pedra nas suas intervenções. O epílogo do tema é “Sou Teu Amigo”, um a capella interpretado pelo petiz de Nico, o pequeno Benjamim Guedes de Carvalho. A review completa e extensa deste disco que reúne um conjunto estelar de músicos abre na hiperligação.

★★★★★

Ao longo de quase sete minutos, “Tumba Laka Muna Kira Táka Pirí” estabelece as fronteiras musicais (ou a ausência delas) deste disco de Lokomotiv. Fá-lo através de uma frenética fusão jazz, funk e rock, com uma acidez que evoca Frank Zappa. Com esse primeiro tema ainda em mente, a subida de Ricardo Toscano ao primeiro patamar do jazz nacional foi rápida, mas apenas porque o seu invulgar talento e a sua forte personalidade musical marcaram esse ritmo muito naturalmente desde muito jovem. Com matriz na tradição do bop e do pós-bop, ei-lo agora também a marcar pontos em contextos mais livres, ao lado de improvisadores do nosso panorama.

O balanço perfeito entre a sua preponderância melódica e a pertinência excêntrica é uma das maiores qualidades deste disco dos Lokomotiv, algo que se sente no seu cruzamento com os explosivos solos de Delgado. Ambos suavizam o fundo sónico, onde Barretto e Salgueiro (e os ruídos/acordes de Delgado) desconstroem os compassos para nos presentear com uma multiplicação prismática de possibilidades rítmicas. É com os sentidos em alerta, esticados como cordas, que se saboreia os contrastes de intensidade daquilo que parecem as duas faces (com o foco a alternar-se sensivelmente a meio da malha) de “L’ombre Du Triton”. “Ornettish” recupera o confronto entre guitarra e saxofone, mas desta vez a secção rítmica é propulsivamente mais directa, sentido-se a excepcional suavidade do controlo dinâmico dos Lokomotiv quando o quarteto refreia o seu ímpeto para o solo de contrabaixo.

“Horizontes De Paz” torna a colocar o contrabaixo como elemento central. Os sobretons de Barretto são deslumbrantes e, quando os restantes instrumentos emergem, o tema sente-se como se os músicos estivessem a tocá-lo sobre um lago, sem agitar as águas. Altura para referir o excelente trabalho de gravação de Nelson Canoa, nos seus Canoa Studios, em Torres Vedras, capaz de traduzir com enorme detalhe o calor específico de fontes acústicas e eléctricas. E ainda a mistura e masterização de Carlos Vales, respeitando o amplo espaço de acção e articulação de cada um dos elementos dos Lokomotiv. Esta é apenas uma parte da review completa que abre na hiperligação.

★★★★★

O álbum arranca com “Ninguém Parece Sentir”, tema no qual André Fernandes, Sara Badalo e Alexandre Frazão exploram uma dinâmica amplamente ambiental, com a manipulação electrónica das vozes de Badalo a criar os rasgos emocionais de uma letra que, à Jim Morrison em “People Are Strange”, repete consecutivamente: «Ninguém te vê (V), ninguém te sente, ninguém, ninguém parece sentir». Reverse delays, um octaver a fazer a guitarra emular baixo e Frazão num estilo pocket drum são os alicerces de “Break The Circle”, tema em que as vozes de Badalo nos transportam para a Los Angeles de “Blade Runner”. Estes primeiros dois temas estabelecem o mood do álbum, um sci-fi neo-noir com ligações a melodias rítmicas exóticas e orientais e à abrangência textural de Radiohead. Sensações que são congregadas em “Luz”.

Mas há outra face no disco e nos FUSHI, mais directa e de urgência propulsiva, como se ouve em “Dose Pura”. Badalo continua a roubar o foco, sendo simultaneamente capaz de uma prestação que emula a fria artificialidade andróide e oferece um calor imensamente orgânico. Este paradoxo está bem latente em “Incerto”. Estes pontos luminosos, empurrados pelas nebulosas sónicas que Frazão cria com as vassouras, são sinestésicos – como se estivéssemos diante de Roy Batty, a ouvir o seu lacrimoso monólogo à chuva. Da mesma forma que em “Deserto”, que se sente como uma continuação, quase cremos poder ver «raios-c brilharem na escuridão, junto ao Pórtico Tannhäuser».

Em “Question”, André Fernandes, Sara Badalo e Alexandre Frazão mostram-se num freneticamente sincopado exercício de múltiplas camadas sónicas. Depois de se entranhar a sua complexa estrutura rítmica, ganha-se a sensação de entrar em território mais familiar. Mais ainda na balada “Float” que, como a já citada “Dose Pura”, é canção que nos faz pensar em Juliette Lewis and the Licks, embora Sara Badalo tenha doçura e amplitude vocais incomparavelmente maiores que a actriz norte-americana. Aliás, isso torna-se evidente quando, logo em “Nós”, a algarvia pisa o território de Björk e o mistura com as harmonizações corais do folk búlgaro num assombroso a capella que poderia estar perfeitamente incluído na banda-sonora que Kenki Kawai escreveu para “Ghost In The Shell” – a animação de 1995 e não o recente live action. A review completa deste disco abre na hiperligação.

★★★★★

O mais difícil em várias áreas da vida é simplificar a complexidade. Tomar cada pedaço, aparentemente desconexo, de existência, cada sentimento, cada derrota e cada conquista, num fluxo que possamos racionalizar retrospectivamente e, então, suavizar a sua interpretação. Essa solidificação das ideias, permite-nos encarar o inesperado com maior optimismo. A música é muito assim e, particularmente, “Invisível” sente-se dessa forma. O seu enorme espaço atmosférico, as pungentes melodias – que enorme vigor criativo Isaura revela neste disco – e o dinamismo rítmico, permitem que “Invisível” se instale suavemente na nossa percepção. A partir daí, somos surpreendidos amiúde pela desenvoltura dos arranjos, pelas síncopes dos beats e dos arpeggios e pelas progressões melódicas inesperadas!

O conforto da simplicidade surge ainda pelo calor orgânico da voz de Isaura, que nos embala numa intrincada e onírica tapeçaria electrónica. Como tão bem se constata no single “Viagem”, um universo entre a realidade e a ficção no qual Isaura é a personagem principal que abre portas em busca de respostas que acalmem as suas inquietações, passando por paisagens inspiradoras, mas simultaneamente inóspitas e totalmente dominadas pela natureza em todo o seu esplendor. De resto, a ideia destas dualidades percorre todo o vídeo em contrapontos constantes que se tornam indispensáveis para contar esta história.

Esteticamente é um álbum triunfalmente feito de convergências. Modernamente suburbano em momentos como “PHTGDM?” para, logo a seguir, ser pós-punk como sucede em “Só Quero Que Te Sintas Bem”. Tão depressa se apresenta trip-hop, como sugere fundações rítmicas transatlânticas nos momentos de dança. Alterna elegantemente entre apontamentos do pop asiático e “je-ne-sais-quoi” de Paião ou Variações. A review completa a este “Invisível, um disco pop de enorme coração, pode ser lida na hiperligação.

★★★★★

A primeira coisa que qualquer um imediatamente constatou no novo álbum de Besta é a enorme transmutação da banda. Se até aqui, a violência sónica do quarteto nunca sofreu nenhum compromisso, agora somos colocados diante de um predador totalmente diferente. Naturalmente, a ferocidade permanece intacta, mas os recursos que a demonstram foram consideravelmente aumentados. A secção rítmica transporta consigo o imponente poder propulsivo dos álbuns anteriores dos Besta e o dinamismo dos incessantes e fogosos apontamentos das guitarras é explosivo.

Falando em dinamismo e propulsividade, as baterias neste álbum são um tremendo rugido de Paulo Lafaia ao quão underrated é enquanto músico. Há três décadas que permanece activo e a evoluir, adquirindo uma panóplia de recursos considerável e aqui nos assina a sua impressionante Suma. Vejamos, a tentação de qualquer baterista seria percorrer este disco com blast beats de uma ponta à outra. O que Lafaia nos oferece é precisão e velocidade com tremendo savoir-faire nos pratos, groove nas ghost notes e apurado bom gosto nos fills. Claro, há blast beats de sobra, mas o domínio rítmico dos momentos das canções, nas sincopagens, nos breakdowns e até nos compassos compostos que surgem ocasionalmente, é que se manifesta trovejantemente vigoroso.

Depois, é a nova era dos Besta, uma era de riffs e shredding, que mais se destaca “Terra Em Desapego”. Referimos o “Heartwork” em jeito de referência, mas o álbum até abre com um malhão com riffs ‘Morbid Angelicais’, apropriadamente intitulado “Olhar Seráfico”, cujos solos podiam ter sido gravados por Trey Azagtoth. Até aqui, sempre considerara o Rick Chain (Ricardo Correia) um guitarrista de trabalho árduo, dedicado e bastante sólido nos ritmos. Ao Ricardo Matias só o reconhecia (musicalmente falando) pela elegância melódica que emprestou aos Sinistro – um registo musical totalmente diferente.

Podem imaginar o meu queixo a escancarar-se até ao chão quando, na sessão de audição que realizámos, dou por mim a ouvir riffs que me remeteram para Slayer, Morbid Angel, Carcass ou Death e melodias com o sabor clássico de Iron Maiden, Judas Priest ou Mercyful Fate. Foi um disco que apresentámos num exclusivo, numa review profundamente imersiva que podem abrir na hiperligação.

★★★★★

Na nossa review a este disco – que podem ler integralmente na hiperligação – apresentamos noções algo labirínticas. O mesmo sucede com “Achamoth” dos Wells Valley e com as suas canções. Não são inacessíveis, mas exigem iniciação para melhor compreensão dos crescendos de dissonância e das polirritmias empregues que, lentamente aumentam o impacto da música. Sempre dinâmicas, desde a abertura com “Princeps”, as canções são formas de meditação através da repetição das estruturas, uma e outra vez, até à imersão completa. Então, vão surgindo nuances que atenuam (apenas ligeiramente) a opressão.

“Host’s Scintillation” talvez seja a malha que melhor ilustra estas noções, delimitando de forma exuberante essas oscilações dinâmicas e emocionais através dos seus lisérgicos riffs e o meditativo pulsar rítmico. “Law Of Tutelary Spirits” é uma malha mais formulaica, mais apegada ao cânone do avant-garde black metal ou post black metal, mas se não será tão gratificante na capacidade de surpreender, é executada de forma perfeita dentro do conceito musical do álbum e o seu breakdown é vertiginoso, dando depois lugar a um drop arrasador.

Na épica “Intercession And Invocation”, o power trio torna a espraiar-se num lânguido e agonizante midtempo e, sensivelmente a meio da malha, abre um tenebroso e gargantuesco abismo sónico, onde se podem contemplar sinestesicamente essas horrendas forças que mantém cativa a alma humana. E então “Vessel Possessor” e “Indwelling In Matter” soam como pavorosos enxames que vem devorar a sanidade ainda preservada. Os Wells Valley não oferecem qualquer catarse em “Achamoth”. O que começa por ser nauseante, fazendo mímica dos repetidos ciclos de condenação, queda e violação da manifestação do divino que é o núcleo da pessoa, torna-se aterrorizador.

★★★★★

Desde “Volúpia”, o tema que abre o disco (depois da introdução ambiental que é “Vendaval Utópico”), fica claro que este é um disco com uma certa refundação estética, que assenta em mais guitarra. Não na presença do instrumento, mas na sua acção. O abrasivo riff de Miguel Fonseca, a catapultar a cavalgada rítmica, sente-se mais desenvolto, em vez do tradicional papel de reforço do peso estrutural das malhas. De seguida, “Vector Arcano” talvez remeta mais para Godflesh, até pelo magistral da sintetização, mas os dados foram lançados. A root note é vibrada ao longo da oitava completa e de harmónicos carregados de groove.

“Virtudes Piroclásticas” remete para o tribalismo que os Cavalera instituíram nos Sepultura, mas como se os Bizarra Locomotiva aplicassem-lhe, uma vez mais, o filtro de sujidade urbana de Justin Broadrick. É na interpretação de referências (um exercício subjectivo) – e mais se poderiam apontar, como a herança dos Mão Morta na manifestação lírica e vocal de Sidónio ou as progressões dos Voivod que a banda simplifica – que se desvenda a singularidade artística (uma constatação objectiva) de Bizarra Locomotiva. E já que falamos em referências, mais alguém sente como o dramatismo orquestral de “Vala Comum” remete para os titãs Celtic Frost em “Into The Pandemonium”?

Estes pressupostos são apresentados em diferentes equações em “Vultos no Fogo”, “Veia do Abandono” ou “Volição dos Escravos”. Musicalmente este é o núcleo do álbum. O groove sincopado de “Vultos no Fogo”, com o balanço adicional dos vertiginosos slides de Fonseca, é hipnótico. A sintetização e o seu pulsar rítmico em “Veia do Abandono” é malevolamente sedutora. Talvez seja o mais “quadrado” dos temas, mas é também um clássico imediato para os Bizarra Locomotiva, com os pads épicos ao melhor estilo do synthwave dos anos 80. E depois as camadas de instrumentos e samples da exótica “Volição dos Escravos”, dona do riff de guitarra mais lânguido de “Volutabro”, disco sobre o qual há muito, muito mais a dizer na review integral que abre na hiperligação.

★★★★★

Slow J

Em oito anos, Slow J deixou de ser um técnico de som anónimo, um músico de homestudio, e tornou-se o artista português que bateu o recorde de álbum mais ouvido de sempre no Spotify logo no primeiro dia após o lançamento. João Batista Coelho lançou “Afro Fado” a 24 de Novembro e o disco foi tão ouvido nos primeiros dias que se tornou no oitavo álbum mais escutado na plataforma a nível mundial. O trabalho foi construído ao longo de quatro anos e distingue-se por uma série de factores, desde logo uma abertura a colaborações, com a co-produção dos irmãoes GOIAS, os gémeos Henrique e António Carvalhal, e as participações de Teresa Salgueiro e Gson.

Num álbum em que o seu autor mantém o rap como trave mestra, mas se afasta dos padrões instrumentais que mais associamos ao hip hop, o resultado é um som híbrido e coeso que junta elementos urbanos e tradicionais, globais e locais. Em entrevista com o Rimas e Batidas, o músico deixa ideias valiosas sobre o processo de construção do disco e o conceito que idealizou…

«Uma parte do exercício do Afro Fado foi perceber como é que não iríamos fazer o álbum mais óbvio de todos os tempos. Chama-se Afro Fado, estás a viver a actualidade que estás a viver em termos de música, e há bué clichês que tu pensarias logo assim que a ideia fosse colocada no ar. Um deles é ter uma fadista. Tal como ter guitarra portuguesa ou beats afro. Em muitos desses aspectos tentámos subverter os clichês, tentámos encontrar maneiras de ir à volta, de encontrar soluções que não fossem óbvias. E a Teresa Salgueiro foi unânime, ela própria é a subversão da ideia de uma fadista… É uma artista super conceituada, toda a gente reconhece a sua voz imediatamente, não tem nada a ver com a voz de fadista que conhecemos… E os gémeos cresceram a ouvir Madredeus, era um sonho de vida. Fomos ao contacto com ela, a ideia da canção já estava lá, a cena deu-se e acho que ficou maravilhoso».

★★★★★

“Budda Power Blues Collective” é o décimo primeiro álbum da prolífica banda liderada por Budda Guedes, que aqui surge expandida a um sexteto. Uma secção de sopros e uma harmónica, complementam a energia do power trio tradicional, num disco que pende um pouco mais para o mundo soul e R&B. Ao longo de onze temas, este LP ouve-se de forma algo anacrónica com o sentido que a indústria fonográfica estabeleceu no mainstream. Dito isto, não se trata este álbum de um exercício de nostalgia, mas de uma vigorosa e charmosa colecção de canções com um sentido intemporal.

João Martins (Saxofone), Rui Pedro Silva (Trompete) e João Andresen (Harmónica), unem forças com Budda Guedes, Nico Guedes e Carl Minnemann, trazendo a banda mais para Nova Orleães e o som clássico do Stax and Chess Records, em detrimento do músculo rocker de muitos dos discos anteriores da banda que, ainda assim, mantém a sua identidade perfeitamente intacta, mas com mais texturas e arranjos que aumentam a sofisticação e nuances dinâmicas, desde o rhythm & blues cheio de swing de “It Doesn’t Matter”, no qual o supracitado som de Nova Orleães está bem latente, a “Multiple Times” cujos riffs de guitarra crus de Budda Guedes nos remetem para a essência primordial da banda.

O som de Nova Orleães ressurge em “Different Thoughts”, reforçado por poderosas batidas à Bo Diddley. Em “The Least Resistance Path To Harmony”, parecemos marchar atrás de uma banda de rua na icónica cidade das margens do Mississippi, cujos pântanos quase podemos cheirar em “Gonna Travel Far”. “So Long”, “These Arms” e “Brothers From Different Mothers” são baladões blues rock cuja execução pode não se siatuar entre a mais instrumentalmente exigente do extenso catálogo dos Budda Power Blues, mas cuja visceralidade só está ao alcance de músicos cheios de calo.

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